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Entrevistas e dicas de espetáculos

Entrevista com Odilon Esteves - ator mineiro estreia o solo O Importado no Sesc Pinheiros
Publicado em 10/05/2019, 22:00
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No solo O Importado, inspirado no conto O Importado Vermelho de Noé, de André Sant’Anna, o ator Odilon Esteves leva para o Auditório de Sesc Pinheiros questionamentos sobre o modelo de vida que valoriza o consumo e questiona o sentido da existência.

A temporada acontece entre 23 de maio a 15 de junho no Auditório do Sesc Pinheiros.

Após as sessões dos dias 07 e 14 de junho, haverá um bate-papo entre plateia e ator.

Na trama, um jovem administrador está na Marginal Tietê, em São Paulo, no seu carro importado, dirigindo rumo ao aeroporto.

Tudo está bem até que a chuva o deixa preso no congestionamento. Como não há o que se fazer, o homem começa a expor os seus pensamentos burgueses e preconceituosos.

Odilon é ator, professor e diretor de teatro, com atuações no cinema e na TV.
No teatro, formou-se no Curso Técnico de Teatro do CEFAR - Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes (1998-2000) e graduou-se no Curso Superior de Artes Cênicas da UFMG (2001-2007), habilitação Licenciatura em Teatro.

É membro-fundador da Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, com a qual realizou inúmeros espetáculos, entre os mais recentes: Aqueles Dois (2007), inspirado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu; Prazer (2012), direção e dramaturgia da Cia. Luna Lunera; e Urgente (2016), direção de Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa.

Dirigiu também vários espetáculos e entre os mais recentes: Oié! (2015), da Cia. dos Aflitos; Entre por esta porta agora (2017).

Foi um dos criadores do Núcleo Cênico do Colégio Arnaldo, BH/MG (1997-2007), além de realizar a palestra-cênica Para abrir uma janela, apresentada em colégios e faculdades, e manter também um canal no YouTube e a página Espalhemos Poesia (no Facebook), no intuito de estimular o gosto pela literatura.

ENTREVISTA -

Nanda Rovere - Você disse que a ideia do projeto foi a partir da busca do significado da palavra loucura. O que ela significa pra você enquanto artista e cidadão?
Odilon Esteves - A humanidade embarcar num projeto ditado por um pequeno grupo de poderosos, acreditar que se seguir o script à risca também entrará para esse grupo de poucos, e em virtude disso ser conivente com a perpetuação de castas sociais, com o extermínio de diversas espécies continuamente, com a destruição do meio ambiente, com a opressão de uma parcela gigante da população, conivente com a deturpação de um Deus tido como sócio de uma empreendimento financeiro, etc. etc. etc. e chamar tudo isso de normalidade... isso, pra mim, é uma loucura. Talvez seja a grande loucura.

NR - Gostaria que você falasse sobre como conheceu a obra do André Santana e como foi transportá-la para o palco?
OE - Conheci esse conto no início dos anos 2000, na antologia "Os cem melhores contos brasileiros do século", feita por Ítalo Moriconi e publicada pela editora Objetiva. Decidi levar o texto integralmente ao palco, sem cortar ou modificar nenhuma frase. A encenação foi sendo construída junto com Fernando Badharó, codiretor da peça, buscando camadas paralelas, que vão sendo comedidamente sugeridas ao público, a partir de referências de realidades brasileiras contemporâneas. Escrevi ainda uma carta ao público, que tem uma parte lida no prólogo, e o restante em uma interrupção antes das cenas finais do espetáculo. O personagem é, dentre outras coisas, extremamente racista, e a pergunta "como fazer um personagem assim, cujo discurso tem sido aplaudido por uma parcela da sociedade, sem correr o risco de continuar naturalizando o que jamais deveria ter sido naturalizado?", essa pergunta me acompanhou durante o processo inteiro.

NR - Como é estar no palco e também ser o responsável pela direção...?
OE - Na Cia. Luna Lunera vivi dois processos de criação em que direção e dramaturgia foram funções divididas também entre os atores: "Aqueles Dois", de 2007, e "Prazer" de 2012. Nesses processos tínhamos que desenvolver uma visão macroestrutural do que estava sendo desenvolvido e ao mesmo tempo entrar, como atores, no jogo de cena. Então, acredito que fomos fortalecendo esse lugar de estar em cena e fora dela, e de saber a hora de uma coisa e de outra, embora contássemos, nos dois processos, com um codiretor com o olhar de fora, e isso foi muito importante. Em "O Importado", Fernando Badharó cumpre essa função de olhar externo. Ambos levamos proposições, a encenação e as linhas de atuação foram sendo definidas em diálogo constante, mas ele tem um ponto de vista privilegiado. A partir de suas proposições, problematizações ou provocações, fui sendo estimulado a buscar caminhos, saídas, respostas tanto para a atuação quanto para a encenação, e novas questões também iam aparecendo, frutos deste movimento. E assim o percurso foi se dando... e continua... mesmo depois da estreia.

NR - O que vc destaca na trama é (doidamente) tão atual?
OE - A obsessão pelo dinheiro, o individualismo, a exclusão ou menosprezo do outro como, inclusive, estratégia para eliminar possíveis competidores.

NR - No release, você fala um pouco sobre o seu personagem. Gostaria que escrevesse um pouco sobre ele.
OE - Trata-se de um homem branco, jovem administrador, bem-sucedido financeiramente, que certamente foi educado com máximas como "você tem que ser o primeiro da turma", "você tem que ser o melhor", "no mercado só o número 1 importa", etc., etc., etc. Um homem que tem uma meta eternamente renovável de superação financeira, que passaria por cima do que quer que fosse para atingir seus objetivos, que acredita que a felicidade está na acumulação de bens. Em resumo, um homem que acredita na expressão "tempo é dinheiro", e assim, despreza, desconhece ou negligencia outras dimensões da existência que o dinheiro não é capaz de acessar.

NR - Na peça, o personagem cultua valores como dinheiro, posição e poder. Quais os valores você carrega como essenciais na sua vida pessoal e profissional?
OE - Na construção das relações sociais, afetivas, respeito ao outro e a si mesmo é um valor indispensável. Gentileza, escuta, autocrítica são muito bem-vindos à vida. Mutualidade é um valor. Honestidade é um valor. Empatia é um valor. A convivência com a arte, para mim, é um valor. O acesso a diversas realidades e à multiplicidade de formas de existir, também. Acho que tudo isso são valores para guiar nossas buscas, nosso processo de tornar-nos. Quando a gente percebe que alguns valores estão se perdendo, que nos escapam, talvez sirva de alerta para a gente reencontrar nosso prumo, ou construir outro rumo... mas é sempre um indício de que algo precisa ser revisto, repensado.

NR - Fale um pouco sobre a sua formação, sobre as suas atividades e como é ser artista em Belo Horizonte. Claro que não posso deixar de pedir para você falar da cia Luna Lunera.
OE - Fiz o Curso Profissionalizante de Teatro do Cefart/Palácio das Artes, no final da década de 90. Depois estudei na UFMG, licenciatura em Teatro. Fundamos a Cia. Luna Lunera em 2001, e desde então a maioria dos processos de criação que vivi foram dentro do grupo. Os coletivos que permanecem juntos muito tempo nos dão essa dimensão do que é construir uma ideia de autonomia de produção, na escolha de caminhos técnicos, éticos, estéticos. Há altos e baixos, evidentemente, há desvios de rota, há momentos de partilha, afinidades e conexão profundas e momentos de desencontro, dissenso, desagregação. Mas é um terreno muito propício ao aprendizado contínuo, não só artístico, mas também em relação ao convívio, ao entendimento do microcosmos social que um grupo representa.

NR - O texto fala de um homem branco, racista, capitalista. Fale um pouco sobre a importância dessa obra, nesses dias sombrios.
OE - O conto do André Sant'Anna é um fluxo de pensamento. E o pensamento é um território livre (mesmo quando o indivíduo tem a mentalidade aprisionada.). O que temos assistido no mundo atualmente é o pensamento deste personagem virando discurso, sendo verbalizado, publicado e muitas vezes ecoando vastamente na sociedade, recebendo aplausos. Esse homem é muito próximo da gente. Porque ele é um pensamento amplamente difundido e arraigado.

NR - E por falar nesses tempos sombrios, você vê uma luz no fim do túnel com relação a essas mudanças na Lei e aos desmontes não somente na cultura, mas na educação?
OE - Tenho sempre esperança, e tenho otimismo. Tem uma fala do Milton Santos, geógrafo brasileiro, no documentário "O mundo global visto do lado de cá", em que ele menciona as lacunas, as brechas, e é por elas que a luz entra. Esse documentário precisa ser visto e revisto. Temos pensadores fundamentais no Brasil e no mundo, e suas ideias estão por aí, semeadas como que num campo de vagalumes. Essa gente que propõe as trevas, não faz ideia do quanto nossa percepção se aguça, para enxergar na noite sem lua, o brilho desses vagalumes.

NR - O que destaca no teatro mineiro, o que tem te tocado?
OE - O teatro em Minas continua efervescente, criativo, pulsante. Nós artistas, evidentemente, temos sofrido com o desmanche, mas tenho visto muitos trabalhos plenos de vigor. Recentemente a Zula Cia. de Teatro estreou "Banho de Sol", peça-documentário sobre a experiência que as atrizes vivenciaram dando aulas de teatro para mulheres em privação de liberdade num complexo penitenciário de BH. Um trabalho muito forte! A Cia. Negra de Teatro estreou "Chão de pequenos", com influências do teatro-dança, e é também uma beleza de espetáculo. O Grupo Oficcina Multimédia, da Ione de Medeiros, montou um "Boca de Ouro", do Nelson Rodrigues, impecável (inclusive estará em cartaz em São Paulo, agora). Tem o Segunda Preta, já na sétima temporada (entra no segundapreta.com para você ver que força). Poderia ainda citar muitas coisas! O teatro continua vivíssimo por aqui!

Ficha artística
Texto: André Sant’Anna
Atuação: Odilon Esteves
Direção: Fernando Badharó e Odilon Esteves
Iluminação: Juliano Coelho
Trilha Sonora: Barulhista e Lucas Morais (Lugares do Invisível)
Direção de arte e identidade visual: Fernando Badharó
Cenotécnico: Nilson Santos
Fotografia de cena: Kika Antunes
Produção: Luciana Veloso

Serviço
De 23 de maio até 15 de junho de 2019.
Quinta a sábado, às 20h30
Local: Auditório (98 lugares)
Valores: R$ 25,00 (inteira), R$ 12,50 (estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência) e R$ 7,50 (credencial plena do Sesc trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Classificação: 16 anos
Duração: 60 minutos
Sesc Pinheiros - Rua Paes Leme, 195
Bilheteria: Terça a sábado das 10h às 21h. Domingos e feriados das 10 às 18h
Tel.: 11 3095.9400
Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 7h às 21h30; Sábado, das 10h às 21h30; domingo e feriado, das 10h às 18h30. Taxas / veículos e motos: para atividades no Teatro Paulo Autran, preço único: R$ 12 (credencial plena do Sesc) e R$ 18 (não credenciados). Transporte Público: Metrô Faria Lima – 500m / Estação Pinheiros – 800m

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DE OLHO NA CENA BY NANDA ROVERE - TUDO SOBRE TEATRO, CINEMA, SHOWS E EVENTOS Sou historiadora e jornalista, apaixonada por nossa cultura, especialmente pelo teatro.Na minha opinião, a arte pode melhorar, e muito, o mundo em que vivemos e muitos artistas trabalham com esse objetivo. de olho na cena, nanda rovere, chananda rovere, estreias de teatro são Paulo, estreias de teatro sp, criticas sobre teatro, criticas sobre teatro adulto, criticas sobre teatro infantil, estreias de teatro infantil sp, teatro em sp, teatros em sp, cultura sp, o que fazer em são Paulo, conhecendo o teatro, matérias sobre teatro, teatro adulto, teatro infantil, shows em sp, eventos em sp, teatros em cartaz em sp, teatros em cartaz na capital, teatros em cartaz, teatros em são Paulo, teatro zona sul sp, teatro zona leste sp, teatro zona oeste sp, nanda roveri,

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