Entre o horror e o deslumbramento: uma experiência cênica com Medea, de Séneca, na encenação de Gabriel Villela.
O coração dilacerado de Medea e a sua vingança desmedida.
Gabriel Villela navega nas entranhas de uma obra que explora a crueldade e coloca no palco todo o seu imaginário, recheado de criatividade.
Dolorido, onírico, ritualístico, mítico, criativo, simbolista, genial.
Medea, de Sêneca, com direção de Gabriel Villela, é tudo isso e muito mais.
O teatro de Gabriel Villela e o êxtase de presenciar uma criação arrebatadora. Medea é a união de almas de artistas gritando por luz através desse texto e de uma encenação cuidadosamente mágica, milimetricamente poética.
Num momento em que a pequenez e a mesquinhez humanas atingem limites absurdos — com atos violentos na banalidade cotidiana — o teatro, com tamanha potência e riqueza de detalhes, é um dos meios mais interessantes e tocantes para dizer que precisamos dar um basta e permitir que a delicadeza emane nos corações.
Séneca escreveu essa obra há cerca de dois mil anos, por volta de 50 d.C., inspirada na tragédia original de Eurípides. Pouco encenada, talvez por ser uma verdadeira apunhalada — mas uma apunhalada de arrepiar!
É tão difícil termos voz para dizer o quanto precisamos de amor, empatia, violência zero, não ao etarismo, não a toda forma de maldade e preconceito. Villela prova que essa voz tem lugar por meio da poesia cênica.
O texto de Séneca é considerado mais violento do que o de Eurípides, mas Gabriel Villela, com todo o seu apuro visual, faz com que a fúria da cena venha acompanhada de deslumbramento.
É impossível sair do teatro sem um impacto profundo.
Sêneca foi um filósofo da Roma Antiga, do século I d.C., seguidor do estoicismo — corrente originária da Grécia. Defendia uma filosofia humanista e acreditava que a virtude era o caminho para o homem alcançar o bem.
A história de Medea, portanto, apresenta ações contrárias àquilo que ele defendia como meio de evolução humana, tornando-se um poderoso instrumento de reflexão sobre o quanto o ódio e a violência nos mergulham nas trevas.
A mulher estrangeira e feiticeira não se curva ao poder do rei, que tenta expulsá-la do território. Ela carrega a vingança na alma e, para dilacerar a vida de Jasão, mata os próprios filhos.
Medea dedicou toda a sua volúpia a Jasão, mas ele, diante da oportunidade de uma vida mais luxuosa e sedento de poder, a abandona e fica noivo de Creusa, filha do rei Creonte.
A dor imensa faz Medea perder a noção do certo e do errado. Em sua mente, apenas um desejo: acabar com a alegria dos noivos.
Ela envia a Creusa um manto que provoca um incêndio. Creusa e o pai morrem, mas a fúria da mulher traída e abandonada só encontra freio quando ela atinge o coração de Jasão. Medea amava seus filhos, mas o ódio a deixou sem medida.
A Medea de Eurípides é a mais encenada. Já a Medea de Sêneca por colocar o homem no centro da ação e emanar crueldade, é menos conhecida.
Escrita quatro séculos depois da obra grega, apresentá-la ao público de hoje é mais do que oportuno.
O mundo caótico atual está retratado nessa obra. Eis o poder atemporal da arte: a sensibilidade eterna do artista em falar das nossas mazelas. Nessa peça, os deuses pouco ou nada agem na Terra; no máximo, os acontecimentos se relacionam a forças mágicas.
Conhecer o texto de Séneca é um privilégio. Em um mundo tomado pelo ódio e pela destruição, Medea provoca reflexões intensas e necessárias.
Villela, por meio de seu teatro épico, ressalta a tragicidade de cada fala com movimentos e ações que evocam o mito ancestral do amor partido.
São três Medeas em cena, evocando a força feminina — três versões, visões e camadas de uma das figuras mais emblemáticas do teatro mundial.
Esse desdobramento da personagem amplia sua dimensão simbólica e também tensiona a nossa leitura, ressaltando os arquétipos da condição humana de amor e ódio, da paixão sem freios.
No texto de Séneca, o ódio a transforma Medea numa fera, tomada por uma ira infinita e voraz.
Rosana dá voz à Medea que mata sem dó; Mariana encarna a feiticeira, com movimentos sobrenaturais, um bicho em explosão de raiva na preparação de ervas mortais. Walderez traz um lado que titubeia, analisa, pondera já que o ato é contra os seus próprios filhos;
Estupendas! Trazem a tragédia na veia, na carne!
O elenco é formado por grandes atores. Cláudio Fontana, camaleônico, com olhar penetrante, voz e corpo a serviço de um Creonte tão pragmático e reconhecível em nosso tempo: poderoso, capaz de comprar Jasão com a sua figura de poder autoritário, com promessas de ascensão política e desprezando quem não segue seus preceitos.
Fontana é um ator brilhante, que trabalha com amor e competência para que o diretor e toda a equipe criem com louvor. Jamais puxa o holofote para si.
Por meio do trabalho primoroso com a simbologia das máscaras — essenciais no teatro da Grécia Antiga — a magia da cena se impõe, ampliando a força hipnótica de um texto em que os limites entre amor e ódio, justiça, bem e mal são tênues.
Ambição, vingança, desprezo e ódio — sentimentos vis que se sobrepõem ao amor — continuam a pipocar por todos os lados. Envelhecer ainda é tabu.
A barbárie da mesquinhez gera guerras, e a destruição da Mãe Terra ameaça seriamente a sobrevivência humana.
Medea traz relatos horríveis que evidenciam o quanto um coração partido é capaz de atos inimagináveis.
O abandono é terrível, ainda mais quando o etarismo e ambição são determinantes para que isso ocorra.
Só um elenco formado por grandes atores dá conta de colocar em cena uma peça tão arrebatadora.
Os figurinos de Villela e o visagismo de Claudinei Hidalgo ressaltam o trágico com cores fortes, escuras e intensas, trazendo elementos da natureza como símbolo de uma terra devastada pelos desmandos do homem.
A trilha sonora original, de Carlos Zimbher, reforça o trágico e nos faz mergulhar ainda mais nesse universo avassalador. Villela dirigiu o musical Gota D'Água, com Cleide Queiroz como protagonista, em 2001. O musical de Paulo Pontes e Chico Buarque, vale lembrar, é baseado no mito de Medea e leva a trama grega para um conjunto habitacional carioca, trocando o nome da protagonista para Joana. Num certo momento de Medea, ouvir Rosana Stavis cantando lindamente Basta Um Dia é uma oportuna alusão a uma canção tão emblemática presente no inesquecível musical. Também é uma homenagem à Bibi Ferreira que participou da primeira montagem do texto, em 1975, sob direção de Gianni Ratto.
O cenário de Serroni remete ao circo-teatro — tão presente no universo criativo do diretor mineiro — e também ao palácio de Creonte.
O vermelho-sangue, símbolo de um coração em chamas e da morte, ocupa o palco.
O final, a fuga de Medea, é pura magia e poesia, marcas do teatro desse grande diretor.
O picadeiro recebe com louvor o #imaginai de Villela, artista mineiro que carrega a bagagem da vida roceira, do contato íntimo com a cultura popular e com todo o imaginário que ela abriga.
É a força do teatro provocando reflexões sobre a existência. É a criatividade de Villela evocando beleza e poesia como possibilidades de salvação.
A mágica de dar novos sentidos aos objetos define o teatro de Villela, que convida o público a mergulhar num universo lúdico e simbólico.
Um teatro artesanal, carregado de signos: tecidos bordados e pintados transformam-se nos filhos de Medea e Jasão, mergulhados na água — apenas um exemplo de como o diretor viaja por um universo de encantamento sem abrir mão da reflexão.
A morte de crianças é algo desesperador, e esse artifício cênico, sem deixar de impactar, torna o horror minimamente suportável e, ao mesmo tempo, aguça nossa percepção sobre o quanto tudo o que é abordado na peça é atual e doloroso.
Como espectadora, fui tomada por um estado de atenção contínua, no qual a beleza formal não anestesia a violência, mas a torna ainda mais inquietante.
Sinopse
Na Tessália o rei Éson foi destronado por seu irmão Pelias. Jasão, filho de Éson, pediu ao tio que devolvesse o trono, mas Pelias, para livrar-se do sobrinho, ordenou que Jasão conquistasse o velocino de ouro....aí entra a Medea, durante a busca do Velocino...a história resumida até Corinto...
MEDEA de Séneca, espetáculo sob direção de @gabriel.villela em temporada no @sescconsolacao
A história mítica que antecede Corinto é marcada por tragédia e atos condenáveis do início ao fim.
Pélias, tio de Jasão, usurpa o trono de seu irmão Éson. Para se livrar do sobrinho, envia Jasão em uma missão suicida: buscar o Velocino de Ouro na distante Cólquida. Medea, filha do rei Eetes, nascida naquele lugar, o ajuda a cumprir a empreitada. Jasão torna-se líder dos Argonautas, mas Medea, por meio de seus poderes mágicos, convence as filhas de Pélias a assassinarem o próprio pai. O plano fracassa, e ambos fogem para Corinto, terra do rei Creonte e de sua filha Creusa.
Ali, como sabemos, Jasão abandona Medea e seus dois filhos, Creonte tenta expulsá-la do território, e a sede de vingança culmina no infanticídio. A peça já se inicia na chegada a Corinto, acompanhando a passagem do tempo até a eclosão da tragédia. Jasão e Medea vivem juntos por dez anos, até a separação e o clímax da vingança.
A serpente simboliza a união entre Jasão e Medea: guardiã da árvore onde repousava o Velocino de Ouro, ela só pôde ser vencida graças à magia de Medea, que também ajudou Jasão a dominar os touros que expelem fogo.
Ficha Técnica
Autor: Séneca
Tradução: Ricardo Duarte
Direção e figurinos: Gabriel Villela
Elenco: Walderez de Barros (participação especial), Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro
Cenografia: J C Serroni
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora Original: Carlos Zhimber
Diretor Adjunto: Ivan Andrade
Assistente de Direção: Gabriel Sobreiro
Costureira: Zilda Peres
Máscaras: Shicó do Mamulengo e Junior Soares
Assistente de Cenografia: Débora Ferreira
Pintura de Arte e Texturização: Beatriz Leandro, Débora Ferreira, Flávia Bittencourt e Camila Myczkowski
Cenotécnicos: Alicio Silva e Douglas Vendramini
Assistentes de Cenotecnia: Theo Piazzi, João Portella e Benilson Alves
Costuras Cenográficas: Flávia Bittencourt
Músicos Convidados: Daniel Doctors, Luca Frazão e Gustavo Souza
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Assistente de Maquiagem: Patrícia Barbosa
Fotografia: João Caldas Fº
Assistente de Fotografia: Andréia Machado
Ilustração do morcego: Guilherme Crivelaro
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto
Diretor de Palco: Diego Dac
Operador de Luz: Rodrigo Sawl
Operador de Som: Ricardo Oliveira
Camareira: Ana Lucia Laurino
Produção Executiva: Augusto Vieira
Direção de Produção: Claudio Fontana
Serviço
Medea
Sesc Consolação - Teatro Anchieta - Rua Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo - SP
Telefone para informações: 11 3234-3000
Temporada: 29/1 a 15/3/2025
Horários: Quintas, Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
Sessões em horários diferenciados:
Dia 14/2. Sábado, às 18h
Dias 26/2 e 5/3. Quintas, às 15h
TEMPORADA PRORROGADA ATÉ 15 DE MARÇO.
Vendas a partir de 3 de março às 17h, para as sessões de 12 a 15/03. https://www.sescsp.org.br/programacao/medea-2/
Lotação: 280 lugares | Duração: 80 minutos |
Ingressos: R$70 (inteira) R$35 (meia entrada) e R$21(credencial plena;
Venda on-line a partir de 20/01 (terça), às 17h, em centralrelacionamento.sescsp.org.br e no App Credencial Sesc SP
Venda presencial a partir de 21/01 (quarta), às 17h, nas bilheterias do Sesc São Paulo
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