Com uma lupa, literalmente uma lupa usada em cena, acompanhamos a situação inusitada de Winnie, que fala sem parar e está atolada em areia, pelo que o texto diz, perto do mar.
No decorrer da peça, ela vomita as suas opiniões e considerações sobre a vida e termina só com a cabeça à mostra.
Uma situação surreal, nonsense, explorada ao estilo da Cia Armazém, com humor, ironia, criatividade.
Patrícia Selonk é das nossas grandes atrizes.
Direção de Paulo de Moraes que explora a fisicalidade dos atores. Winnie aprisionada, desesperada com a sua idade, com o tempo voando e sem nenhuma perspectiva, tentando sair do aprisionamento para viver com esperança e, enquanto isso, Willie mergulhado no seu mundo, sem ânsia alguma de fazer algo pra ajudar a esposa a sair dessa situação bizarra.
Um retrato do homem machista, sem empatia, apático.
No elenco, Patrícia Selonk (Winnie), única intérprete da personagem protagonista; Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes, alternantes no papel de Willie.
Mesmo com pouquíssimas falas, os silêncios contém significados e denotam o quanto ouvir o outro é algo complicado, ao mesmo tempo que a solidão também amedronta.
Nessa alegoria ao aprisionamento, seja a uma ideologia, opinião ou situação, o ritmo das falas é frenético e o cenário é simbólico: um sol à pino, causticante, em destaque e uma rampa com a entrância na qual Winnie está presa.
Um ambiente que pode representar o quanto estamos numa corda bamba entre agir e se acomodar, entre querer as coisas do nosso jeito e não ceder, um mundo de individualismo e que assim como a rampa tem altos e baixos.
Não sabemos quando tudo ocorre. É real!? É imaginação? Winnie está mesmo com o marido ou ele morreu e ela o imagina? Uma arma em cena pode ser uma pista... é um espaço de guerra, talvez... a trilha sugere, mas como ocorre em Esperando Godot, não existe certeza de nada. Pode ser o passado e o presente, afinal vivemos sempre sob o risco de um apocalípse. Uma indumentária com elementos atemporais reforçam a indefinição de tempo e a adaptação do texto, assinada por Jopa Morais, aproxima, através de algumas falas, o texto dos nossos dias.
Se num primeiro momento Patrícia Selonk pode mostrar toda a sua competência através das entonações, olhares e expressões corporais, num segundo momento, é no seu olhar, expressão facial e vocal que estão concentrados todo o seu potencial de atriz ao viver uma figura estranha, enigmática, à beira da loucura, usando sombrinha e maquiagens que são inúteis num lugar inóspito. Essa mulher cansa porque cansa viver numa realidade na qual o amanhã é sempre incerto diante de guerras, preconceitos e destruição da natureza. A luz e a trilha ajudam a desenhar esse cenário absurdo, árido, muitas vezes exagerado e até psicodélico. Uma projeção sugere um corpo em transmutação. Uma frase de Beckett evoca um mundo já sem conforto, sem sentido, fútil e inútil. O mundo em destruição e Winnie mexendo numa bolsa, tentando preencher o vazio em que está mergulhada. A iluminação é de Maneco Quinderé, enquanto a cenografia é de Carla Berri e Paulo de Moraes.
Os figurinos são de Carol Lobato e a música original de Ricco Viana, com cantos dos atores em determinados momentos e música com texto de Cecilia Meirelles e a evocação da persistência da felicidade, apesar de tudo. Guairinha 3 de abril de 2026 |