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Entrevistas e dicas de espetáculos

O dramaturgo, ator e diretor Kiko Marques fala do espetáculo Sínthia, em cartaz no Espaço dos Fofos
Publicado em 23/08/2016, 16:00
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Kiko Marques está entre os maiores artistas na atualidade. Integrante da premiada Velha Companhia, é ator, diretor e dramaturgo.

Em 2003 em São Paulo, junto com Alejandra Sampaio e Virgínia Buckowski, Marques fundou a cia de teatro e, desde então, realiza uma pesquisa continuada, com foco na criação de textos dramatúrgicos de forma colaborativa.

Foram montados os seguintes espetáculos: Os mais recentes: Valéria e Os Pássaros, de José Sanchis Sinisterra (Indicado ao Prêmio de melhor atriz no APCA 2015 e Prêmio Aplauso Brasil como melhor espetáculo de grupo de 2015); Cais ou Da Indiferença das Embarcações (Prêmio de Melhor Autor para kiko Marques de 2013 no APCA, Shell e Aplauso Brasil e Melhor Diretor, também para Kiko Marques, no Prêmio Qualidade Brasil).

Também obtiveram sucesso de público e crítica: O Travesseiro - poema nº1 para a criança (Prêmio Ana Maria Machado – CEPETIN – RJ - Textos Inéditos, Indicações ao Prêmio Femsa SP para atriz, ator, cenógrafa e iluminador, entre outros); Ay, Carmela! (Prêmio Qualidade Brasil 2007 de Melhor Atriz e indicação na categoria melhor ator, Prêmio de Melhor Ator no Festival Nacional de Americana 2007 e com a indicação de melhor atriz); Crepúsculo (Prêmio Myriam Muniz FUNARTE) e o juvenil Brinquedos Quebrados (eleito um dos cinco melhores espetáculos do ano de 2003 pelo Portal IG).

O mais novo trabalho da Velha Companhia é Sínthia, que fala de compaixão. Para a concretização desse espetáculo, que faz curta temporada no Espaço dos Fofos, em São Paulo, os atores mergulharam durante dois anos numa intensa pesquisa sobre Transgeneridade e Ditadura. Pura poesia e emoção!

Na trama, Vicente (Kiko Marques) é um músico clássico que era esperado por sua mãe, Maria Aparecida (Denise Weinberg, atriz convidada) como menina.

O público acompanha a história de Vicente, desde seu nascimento em 1968 até o natal de 2013, quando ele chega para a ceia vestido como Sínthia, nome que teria se tivesse nascido menina.

Uma história poética, dolorida devido às lembranças, que apresenta a alma de personagens aprisionados por uma criação tradicional e cheia de moralismos.

Uma família que sofre com as consequências da Ditadura. Sofrem com os insultos que recebem e com a imagem do pai militar que morreu doente e mergulhado na loucura. Conhecido como Poeta entre os colegas de trabalho, foi um torturador e essa terrível função não condizia com o seu temperamento amistoso no seio familiar.

Henrique Schafer ( também convidado) é pai de Vicente. Integram a Velha Companhia: Alejandra Sampaio, Virgínia Buckowski, Kiko Marques, Marcelo Willians Mezzacapa, Marcelo Marothy e Valmir Sant’anna.

“Sínthia tem origem numa experiência pessoal. Nasci em 31 de março de 1965, um ano exato após o golpe que depôs o presidente João Goulart, mergulhando o país numa ditadura. Meu pai era oficial da PM do Rio de Janeiro na época. Minha mãe teve dois irmãos homens e dois filhos também homens antes de mim. Muito por isso fui esperado por ela como menina. A partir do mote de uma mulher encarcerada num mundo machista, do paradigma da repressão como forma de amor, e da questão da identidade de gênero, resolvi criar uma obra que falasse de compaixão¨, diz Kiko Marques.

ENTREVISTA COM KIKO MARQUES

Kiko fala sobre o fazer teatral, a Velha Companhia, o seu processo de criação e sobre o lindo espetáculo Sínthia.

DE OLHO NA CENA/ NANDA ROVERE: No release de Shintia vc diz que a peça tem origem numa experiência pessoal. Os seus textos sempre trazem referências de sua vida pessoal? Fale um pouco sobre o que te move a escrever uma peça
KIKO MARQUES: Encontro e experiência. Medicina espiritual e social do encontro artístico. Do encontro com que é essencial. Com aquilo que de fato nos move e que termina por ser invisível. E que ao artista é dado representar. Cura através desse encontro. Engrandecimento através desse encontro. Clarividência. Pra que lavemos a janela dos olhos e possamos ver melhor. Por isso parto de coisas pessoais e me sirvo de tudo o que vivi e ouvi. Porque, ao contrário que se pode pensar, o que me passa e fica, a ponto de querer escrever sobre, não é a matéria que me isola. É a matéria que nos une . Penso como Tolstoi, falar do mundo ao falar de minha pequena aldeia.

DE OLHO NA CENA: Como vê o teatro no Brasil hoje e qual a função da arte, na sua opinião? ( sinto que cada vez mais os artistas estão buscando textos que promovem reflexões sobre questões essenciais, como a intolerância, respeito
KIKO MARQUES: O teatro é um belíssimo veículo de discussão e isso o torna, nos dias atuais repleto de questões como tolerância e respeito. Por que são questões que nos assolam. Falamos disso. Respiramos isso em nossas vidas cotidianas. Há um movimento do teatro, principalmente do teatro de grupo, no sentido de refletir e questionar essas questões sociais urgentes. Estamos irmanados com ele dentro de nossas características. Porém, quando se busca um sentido para o teatro existir, invariavelmente termina-se por aprisioná-lo, emoldurando-o num desses conceitos fundamentais com os quais se pode defini-lo, mas não fechá-lo. Recuso-me a confinar o teatro nesse ou em qualquer molde. Como Grotowski respondia, quando esteve no Brasil, a cada vez que perguntavam sobre algum tipo de teatro: "Se funciona…"

DE OLHO NA CENA: Fale um pouco sobre o seu processo de criação do Vicente/Sinthia e sobre as pesquisas realizadas durante o processo de criação do espetáculo.
KIKO MARQUES: Fizemos um longo trabalho. Conseguimos um fomento para somente escrever o texto, sem a necessidade de montá-lo. Pesquisar e escrever. Tivemos três temas como foco. O golpe de 64, Transgeneridade e o Mito de Dionísio. Todos extraídos da ideia de trama que já tinha na cabeça. Vários palestrantes estiveram conosco nesse período. Ao mesmo tempo íamos improvisando sobre a trama e os personagens. Dentro dessas improvisações trabalhamos muito a questão do gênero. Ao final desse processo tinha três quartos do texto escrito. Vicente é um semi personagem. Em alguns momentos da vida eu topei com coisas assim. Personagens tão próximos que a melhor decisão era não atuar. Viver o que era proposto. É o que faço em cena. Empresto-me. Já com a transformação de Vicente em Sínthia a coisa foi mais complicada. Algumas questões físicas, corporais, outras, internas. Desde logo tínhamos a ideia de que Sínthia deveria levar o espectador para um lugar de difícil reconhecimento. Um lugar onde não lhe fosse propício o julgamento. Mas que transbordasse compaixão. Achamos que se Sínthia fosse uma trans completa, um vácuo se abriria para o julgamento. Queríamos que ela fosse posta num lugar de difícil catálogo, mais próxima da questão do feminino e do amor presentes na trama. Por isso a carência de artefatos femininos e a busca por lugares internos onde essa feminilidade pudesse reverberar enquanto forma de se relacionar com o mundo e as pessoas.

DE OLHO NA CENA: Numa entrevista vc diz Sempre quis ser um contador de histórias.. A poesia é o que rege o seu trabalho no palco, seja como ator , diretor ou dramaturgo?
KIKO MARQUES: Sim. Considero a sensibilidade uma revolução. Num determinado momento, em Sínthia, o personagem Conrado diz que não há forma melhor de dominar uma pessoa do que transformá-la num idiota dos sentidos. Um aleijado da beleza. Não costumo concordar com o que dizem meus personagens, mas no caso de Conrado, também projetei coisas que penso em relação à arte nesse personagem. Apaixonei-me por arte ouvindo uma história contada por amigos no teatro da escola quando tinha 13 anos. E esse encontro com a sensibilidade foi uma revolução em minha vida e continua sendo.

DE OLHO NA CENA: Por falar nessas três funções, como você as concilia? Qual a diferença entre dirigir um texto de sua autoria e de outro dramaturgo ( existe pra você diferença)?
KIKO MARQUES: Conciliar essas três funções num espetáculo do porte de Sínthia realmente é infernal. Mas foi algo que fui tentando dentro da Companhia até conseguir em "Cais…". Em nosso último espetáculo, Valéria e os Pássaros, só não o fiz porque tínhamos um tempo realmente curto para encená-lo com a morte do nosso querido Walter Portella. Durante a temporada, porém, acabei entrando. Tenho uma necessidade enorme de pertencimento. Quando dirijo uma peça sinto-me totalmente dentro até a estreia. A partir dessa data passo a ser um visitante ilustre daquele mundo. Uma figura meio divinizada e muito ponderosa. E o poder não me comove tanto assim. Prefiro a parceria. Por isso tenho insistido para estar por dentro dos espetáculos de nossa Companhia. Todos entendem isso e são muito generosos comigo e com o tempo curto que acabamos tendo para trabalhar as cenas em que estou. Como disse, nessa fase o diretor impera. Preciso fazer um esforço para calá-lo na hora certa e todos me ajudam. Quanto a dirigir espetáculos que não são escritos por mim é muito mais difícil. Dramaturgia e direção estão totalmente juntos no meu caso. Por isso dirijo meus textos. Assim que acabo de escrevê-los já os conheço profundamente. Já quando dirijo outros textos, nos prazos que acabo tendo que praticar em alguns processos de montagem tenho um tempo muito curto de contato com a obra até ter que tomar decisões. E o tempo é meu maior aliado, parceiro fundamental de minha criação. Por isso, em muitos casos, os diretores acabam se repetindo. Isso é cruel. Em minha última direção antes de Sínthia, Sobre Ratos e Homens, por sorte já era apaixonado pelo texto desde adolescente. O que fez com que eu já habitasse aquele universo. Mas isso é raro.

DE OLHO NA CENA: Você tem uma trajetória de prêmios com a Cia. Como manter uma cia hoje; como conseguir a harmonia quando o processo é colaborativo?
KIKO MARQUES: Na verdade luto um pouco contra esse termo "colaborativo" no caso da nossa forma de trabalho. Não acho que ele se aplique ao nosso caso. Trabalhamos com intensa colaboração, mas com autonomia e centralização. Todas as áreas, inclusive os atores, tem autonomia. E eu tenho total autonomia quando escrevo. Constantemente jogo fora tudo o que foi levantado durante o processo de pesquisa e enveredo por caminhos particulares. O que fazemos, e acho que essa seja nossa maior qualidade, é colocar na roda o que trazemos, Verdadeiramente e despudoradamente. Quando parto para pesquisa e improvisações visando levantar material para a dramaturgia, aquele material que pertencia somente a minha psique, passa a ser trabalhado, burilado, deglutido por um numero muito grande e variado de profissionais. Isso faz com que um personagem que eu concebi passe a ter características que jamais poderia sonhar. Faz com que esse material ganhe uma riqueza e uma polifonia muito grandes. Essa riqueza vai para o resultado final. Mas só o que passa a morar no criador daquela área específica. Ninguém jamais me cobrou co-autoria de meus textos, nem que determinada cena que improvisou devesse estar na trama. Gosto de chamar isso de processo antropofágico. Quanto a manter a Companhia hoje em dia, só sobrevivemos por que no fundo somos poucos. No nosso núcleo, somos eu, Virgínia Buckowski e Alejandra Sampaio. Não seria possível de outra forma.

DE OLHO NA CENA: A música tem papel fundamental nas suas montagens. Como é a trilha desse espetáculo e o papel dela na encenação
KIKO MARQUES: Sou totalmente musical. Quando atuo, apoio-me basicamente no sentido da audição. Guardo até hoje entonações de atores que ouvi quando era adolescente. Talvez isso se dê por conta da música ser capaz de me transportar a lugares da alma com uma rapidez e precisão que nenhuma arte é capaz de fazer. No caso de Sínthia, resolvi levar isso ao extremo. Conto a história de um violinista erudito que passa seis anos compondo a obra que deverá ser executada por seu quarteto de cordas. Como em Cais, pensamos em ter um quarteto nos acompanhando ao vivo durante o espetáculo, mas desistimos porque achamos que um quarteto de cordas tocando ao vivo as belíssimas composições que o Tadeu Malamam fez para o espetáculo competiria com os atores em sua tarefa de se fazer passar por esses músicos de ponta. Também optamos por algumas inserções de músicas das épocas em que a trama se passa na criação de ambientes sonoros (música do bar onde dois personagens se encontram, um compacto que outro personagem está ouvindo durante a cena, etc). No caso de Sínthia, a música não só transporta o espectador como é um dos personagens principais.

DE OLHO NA CENA: Se quiser acrescentar algo. ..falar de projetos.
Não temos nada definido até o momento, a não ser a vontade de apresentar nossos Sínthia, Cais, ou Da Indiferença das Embarcações e, Valéria e os Pássaros talvez juntos como um repertório da Companhia. Quero também fazer um infanto-juvenil que tenho na cabeça há muito tempo chamado O Astronauta, mas por enquanto é só uma vontade.

Ficha Técnica:
Autoria e Direção: Kiko Marques
Elenco:
Denise Weinberg (Maria Aparecida)
Henrique Schafer (Luiz Mário)
Alejandra Sampaio (Maria Aparecida)
Virgínia Buckowski (Nôra e Ana)
Kiko Marques (Vicente)
Marcelo Diaz (Ico, músico e médico)
Willians Mezzacapa (Cezinha, músico e carcereiro)
Marcelo Marothy (Luizinho, músico e paisano)
Valmir Sant’anna (Conrado e funcionário IML)
Diretora de Produção: Patricia Gordo
Cenografia: Chris Aizner
Desenho de Luz: Marisa Bentivegna
Figurinos: Fábio Namatame
Direção Musical e Trilha Original: Tadeu Mallaman
Preparação e Desenho de Movimento: Fabrício Licursi
Consultora Vocal: Fernanda Maia
Assistente de Direção: Mateus Menezes
Consultor Histórico: Ricardo Cardoso
Consultor Artístico: Bruno Meneguetti
Assistente no processo dramatúrgico: Cristina Cavalcanti
Colaboradores do processo dramatúrgico: Marcelo Laham e Maurício de Barros
Fotografia: Lenise Pinheiro
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Design Gráfico: Fabrício Santos
Assistente de Produção: Lívia Ziotti
Diretor de Palco: Fábio Mráz
Assistente de Figurino: Juliano Lopes
Assistente de Iluminação e Operador de Luz: Jean Marcel
Operadora de Som: Carol Andrade
Cenotécnico: Mateus Fiorentino
Quarteto de Cordas: Violino (Mica Marcondes), Violino (Alice Bevilaqua), Viola (Elisa Monteiro) e Cello (Vana Bock)
Técnico de gravação e mixagem: Gabriel Spazziani
Produtor Técnico do Estúdio: Ricardo Martins
Piano: Jonas Dantas
Consultoria Musical: Fernando Martin
Palestrantes da Pesquisa: Jo Clifford, Marcos Napolitano, Maurício Cardoso, Amelinha Teles, Mariana Rosell, Cecília Heredia e Ricardo Cardoso
Produção Geral: Velha Companhia

Serviço:
Espaço dos Fofos (54 lugares)
Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista
Informações: 3101.6640
Sábados, Domingos e Segundas às 20h
Ingressos:
R$ 20
Já a venda no site www.sympla.com.br/sinthia
ou a partir de 20 de Agosto na bilheteria do teatro
Duração: 165 minutos
Recomendação: 14 anos
Estreia dia 20 de Agosto
Temporada: até 12 de Setembro

Dica: José Cetra escreveu uma crítica que representa tudo o que penso sobre esse belíssimo trabalho:
http://palcopaulistano.blogspot.com.br/2016/08/sinthia.html
Clique nas imagens para ampliar:



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DE OLHO NA CENA BY NANDA ROVERE - TUDO SOBRE TEATRO, CINEMA, SHOWS E EVENTOS Sou historiadora e jornalista, apaixonada por nossa cultura, especialmente pelo teatro.Na minha opinião, a arte pode melhorar, e muito, o mundo em que vivemos e muitos artistas trabalham com esse objetivo. de olho na cena, nanda rovere, chananda rovere, estreias de teatro são Paulo, estreias de teatro sp, criticas sobre teatro, criticas sobre teatro adulto, criticas sobre teatro infantil, estreias de teatro infantil sp, teatro em sp, teatros em sp, cultura sp, o que fazer em são Paulo, conhecendo o teatro, matérias sobre teatro, teatro adulto, teatro infantil, shows em sp, eventos em sp, teatros em cartaz em sp, teatros em cartaz na capital, teatros em cartaz, teatros em são Paulo, teatro zona sul sp, teatro zona leste sp, teatro zona oeste sp, nanda roveri,

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