Clarice Niskier tem grande experiência no teatro, mas, com certeza, A Alma Imoral é o seu maior sucesso. Está há dez anos em cartaz, ganhou prêmios e lota teatros.
A peça é do livro homônimo de Nilton Bonder. A obra nos faz refletir sobre o certo e o errado, a obediência e a desobediência, a tradição e a transgressão, a hipocrisia e a honestidade, além de aproximar temas como religião e biologia.
Estabelece com o público um contato contagiante, em que coloca toda a essência da obra de Bonder de uma maneira direta e também delicada.
Um espetáculo que mexe em questões importantes relacionadas ao homem e a sua atuação no mundo em que vivemos. Nos faz repensar valores.
Clarice é atriz, dramaturga, produtora e diretora. Começou na área de jornalismo, mas abandonou a carreira para se dedicar ao teatro.
Estreou profissionalmente em Porcos com Asas, de Mauro Rádice e Lídia Ravera, em 1982. Participou de um grupo infantil chamado Navegando, com a diretora Lucia Coelho, fez muitos trabalhos com Eduardo Wotzik, com destaque para Tróia, de Eurípides. Depois, fez inúmeros espetáculos com Domingos de Oliveira, entre tantos outros trabalhos. São mais de 35 peças em 35 anos de carreira.
Clarice não para porque considera a vida de atriz extraordinária. ¨Eu aprendo, eu vivo, sofro, me alegro, evoluo. É verdadeiramente uma vida. Quando me pergunto se tem algum papel que eu sonhe em interpretar, sempre digo que já faço papel de atriz e esse é o meu papel principal. Peço a Deus que eu possa trabalhar até o meu último dia de vida¨, diz Clarice.
Citar todos os seus trabalhos é impossível porque seu currículo é enorme. Alguns destaques:
2014 - A Lista, monólogo da adaptação do livro de Jennifer Tremblay, direção de Amir Haddad e tradução de Risa Landau; 2013 - A Beira de Um Abismo Me Cresceram Asas, co-dirigiu junto com Maitê Proença e Amir Haddad; 2012 - O Lugar Escuro, com Clarice, Camilla Amado e Laila Zaid; 2002 - Buda, peça de própria autoria junto com Domingos de Oliveira; 2000 - Isabel, com Maitê Proença e Aderbal Freire-Filho, direção Domingos Oliveira; 1999 - Um Equilíbrio Delicado, ao lado de Walmor Chagas, Tônia Carrero, Camilla Amado, Ítala Nandi e Luís de Lima, de Edward Albee; 1994 - As Guerreiras do Amor, adaptação de Domingos Oliveira; 1994 - Clarice por Clarice... coletânea de textos de Clarice Lispector, com direção de Eduardo Wotzik; 1991 - Confissões das Mulheres de Trinta, autoria de Clarice, Cacá Mourthé, Clarisse Derzié Luz, Dedina Bernadelli, Lenita Plonczynski, Maitê Proença e Priscilla Rozenbaum; 1986 - Faces, O Musical, direção Amir Haddad; 1983 - O Circulo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht, com direção de Paulo Reis.
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Cinema: Cavaliers Aux Yeux Verts, As Meninas, Amores, de Domingos Oliveira, "Maria, Mãe do Filho de Deus e Feminices, também de Domingos Oliveira.
Na TV, atuou nas novelas O Mapa da Mina; Uga-Uga; Celebridade; Ciranda de Pedra, Araguaia. Seriados: participações em Confissões de Adolescente, na TV Cultura; Carga Pesada, Sob Nova Direção, A Diarista, na Globo; entre outros trabalhos. No momento, está na novela Carinha de Anjo, do SBT.
Nanda Rovere – 10 anos do espetáculo A alma imoral. Fale sobre esse grande sucesso.
Clarice Niskier - O espetáculo é muito especial. É incrível porque esses anos passaram rápido. Eu não sinto o tempo passar na peça. Ela me conduz a um lugar especial e leve. Apesar de ser muito densa e complexa, ela tem leveza porque fala de uma possibilidade de diálogo entre os homens e de entendimento. Me sinto tão bem, que faço com muito prazer.
Já me perguntaram se um dia eu vou encerrá-la, mas ela é que vai me guiar. O dia em que eu não fizer mais A Alma Imoral será por um motivo alheio à minha vontade.
O espetáculo estreou no Rio e através de um prêmio de circulação nacional que ganhamos em 2010, da Caixa Econômica Federal e da Petrobras, viajamos pelo Brasil. A Alma já passou por aproximadamente 25 cidades brasileiras.
Mais de 400.000 pessoas já assistiram nesses anos. É um trabalho que requer muita dedicação e que tem como produtor José Maria Braga, meu marido. Ele entrou quando a temporada tinha dois anos e a longevidade da peça se deve muito à maneira com que ele produz, agindo de acordo com a nossa cabeça. O que determina o valor e o local das apresentações é o nosso desejo de fazer o trabalho.
NR - Fale um pouco sobre a equipe, como permanecer tanto tempo juntos?
CN – A Alma Imoral aconteceu por causa da confiança que existe entre mim, o Amir Haddad, o José Maria Braga e o Nilton Bonder. Nós somos os pilares desse sucesso. A nossa relação é muito especial; afinal, são dez anos de convivência e com um diálogo muito franco e aberto.
A Alma Imoral reúne pessoas muito especiais. Agora estamos com a ajuda do Carlos Pereira, que é meu braço direito, cenotécnico, operador de luz e de som. Já tivemos também outras pessoas que trabalharam conosco, o Fernando Ostrowsky, a Andreia Alencar, o nosso primeiro diretor de produção, Celso Lemos, e a Ana Vieira, que continua como a nossa assistente de produção. Só tenho a agradecer a todos.
NR - E no decorrer desses dez anos você também fez outros espetáculos e TV...
CN – Fiz a novela Ciranda de Pedra na Globo, Maria Stuart, com a Julia Lemmertz; fiz Um Lugar Escuro, com a Camila Amado, texto da Heloisa Seixas; dirigi Aquela Outra, da Licia Manzo e dirigi também a Maitê Proença e Clarice Derzie Luz, em À Beira do abismo me cresceram asas. Também participei de uma temporada da série Magnífica 70, na HBO.
No momento, estou gravando a novela Carinha de Anjo, no SBT. Sempre que posso concilio outros trabalhos com as apresentações de A Alma Imoral, mas se surgem trabalhos que podem atrapalhar as apresentações de ¨Alma¨ eu não os aceito. E tem também A Lista, que continuo apresentando em eventos corporativos.
NR - Como foi a descoberta da obra e a decisão de transpor a obra para o teatro?
CN – Ganhei de presente o livro no programa Sem Censura, durante um debate sobre religião. O Nilton Bonder estava presente para falar Sobre A Alma Imoral e eu achei a fala dele muito especial. Na ocasião, eu disse que era judia budista e ele saiu em minha defesa após o ataque de uma telespectadora. Já tinha ouvido falar sobre ele, mas não o conhecia pessoalmente. Fiquei muito curiosa em ler o livro, me apaixonei e resolvi montar.
NR - É encantadora a conversa que você estabelece com o público, numa espécie de ¨bate-papo¨ encenado (correto este termo?
CN – Desde o início, a ideia era fazer o espetáculo nesse formato. Eu já tinha apresentado monólogos antes de A Alma Imoral. Encenei Buda, de minha autoria, que o Domingos Oliveira dirigiu, um diretor muito despojado na forma de encenar, e fiz Clarice, por Clarice, com direção de Eduardo Wotzik, que era um roteiro com textos de Clarice Lispector, que me proporcionou muita experiência. Como já tinha também a vivência de escrever para teatro, adaptei a Alma Imoral para o palco.
NR – Na peça você diz o texto e em alguns momentos você pede para as pessoas sugerirem a repetição de algum termo, de algum pensamento. O que mais as pessoas te pedem?
CN – A ideia da repetição surgiu após uma leitura da peça, quando uma moça levantou o braço e pediu para que eu repetisse uma frase. Nessa época, a peça estava em fase de construção ainda, eu não tinha estreado. A repetição me causou uma emoção muito profunda e tive um novo entendimento sobre o que eu tinha acabado de dizer. Então eu arrumei um jeito de combinar com o público os momentos em que eles podem pedir para eu repetir alguma fala.
Pedem-me para repetir falas muito variadas, mas o trecho da solidão é uma repetição recorrente. No último final de semana, pediram para eu repetir a palavra fax.
NR – Se você pudesse escolher o que repetir, o que você pediria?
CN – Pediria para o Amir falar a todo o momento que eu preciso ter o pé no chão, que eu preciso deixar a energia vir de baixo pra cima e que ela deve ser espalhada horizontalmente. E isso é muito importante porque nós vivemos num mundo ideologicamente dividido (em saberes, em classes sociais e ideologias). O Amir pede sempre a integração e esse texto fala de integração... Uma palavra que gostaria de me repetissem a vida toda é integração.
NR –Você falou em integração. Na sua carreira você tem parceria duradouras com artistas, que você já citou, como o Amir Haddad, o Domingos de Oliveira, o Wotzik, a Maitê Proença... Fale um pouco sobre eles.
CN – Eu sou uma pessoa paradoxal e contraditória, porque ao mesmo tempo em que eu gosto da solidão para criar, tenho relações muito duradouras. Gosto de ficar ao lado das pessoas com quem tenho afinidade e sou familiar. Não sei explicar muito bem, mas ao mesmo tempo em que eu gosto de me lançar, de me aventurar, de conhecer novas pessoas, gosto de me enraizar. Tenho amigos de longa data e preservo essas relações de uma maneira meio doida, pois em muitos momentos eu fico distante desses amigos e eles chegam até a reclamar). Mas todos eles moram no meu coração.
NR – Li uma entrevista em que você falava que a sua carreira é pautada por ciclos...
CN – Uma vez eu fiz o paralelo entre as peças de teatro em que eu trabalhava e o que estava acontecendo na minha vida pessoal. Sempre achei correlação. Numa peça eu casava e acabei casando logo em seguida. Numa outra peça, que era uma tragédia, eu estava passando por problemas e precisava ter uma força interior potente para atravessar aquele momento. É como se as peças e a vida sempre estivessem em harmonia.
A arte ritualiza eventos humanos e isso tem consequências na nossa vida cotidiana e no mundo interior, pois compreendemos os ensinamentos que ela nos propõe.
NR – O que você aprendeu com os trabalhos que realizou?
CN - Quem faz teatro está em constante ebulição e evolução. Todo dia eu aprendo. Todo dia eu vou dormir pensando em alguma questão importante porque sempre estou envolvida com um grande texto.
O teatro sempre abre novas possibilidades e uma realidade que vai além desse nosso complicado dia a dia.
NR – No espetáculo A Alma Imoral você se desnuda de corpo e alma. Como é essa entrega e lidar com a questão do preconceito que infelizmente ainda existe?
CN – O verdadeiro trabalho intelectual pressupõe o corpo, na minha visão. Eu preciso incluir o corpo na minha vida espiritual porque sem ele a vida espiritual é incompleta. Essa divisão não tem sentido; o corpo é animal, é espiritual, é leve... a minha mente está dentro do corpo e o corpo também tem as suas transcendências. O corpo auxilia o espírito; com o passar dos tempos ele tem as suas limitações, mas também tem as suas belezas. Quando eu compreendi o que era a Alma Imoral eu senti a necessidade de expor o meu corpo, porque se estou falando da nudez da alma não poderia vestir nenhuma roupa.
O preconceito vai existir enquanto houver divisões entre as pessoas. Mas a minoria das pessoas tem preconceito com relação a esse espetáculo. A Alma Imoral e um fenômeno de aceitação e reconhecimento.
NR – O que imoral para você?
Imoral para mim é os congressistas aprovarem uma medida contra o povo, na calada da noite. Imoral é você ter vergonha do que faz, mas esses políticos não têm vergonha. Eles são inclassificáveis.
NR – E a sua participação na novela Carinha de Anjo? Como é interpretar a Haydée?
CN – Estou adorando. Trabalhar no SBT tem sido uma experiência gratificante, a equipe e o ambiente de trabalho são ótimos. Vou para lá com o maior prazer.
A Haydée é golpista, mas ela também é engraçada porque eu a interpreto com uma certa leveza. Ela só pensa em dinheiro, mas está decadente, finge que é rica e educa os filhos para darem golpe. Ela não tem ética.
É um barato fazer personagens do qual discordamos. Eu compreendo os motivos que levam a Haydée a agir desta maneira, mas não concordo com o seu comportamento. Ela tem que aprender lições na vida e aprender a falar a verdade.
NR – Você está de olho em qual (em quais cenas) hoje?
CN – Estou de olho no lugar de resistência da música no Brasil. Estou de olho na nossa canção porque meu próximo trabalho tem ligação com essa música. Estou prestando atenção no que a música popular brasileira tem de resistência para manter o Brasil bonito e pungente.
Amo o Brasil. Meu filho quer sair do Brasil e estou vendo os jovens desacreditados com relação ao nosso país. Eu estou muito triste, mas amo viver aqui e não tenho planos de residir em outro lugar. Estou de olho nos lugares onde a criação não parou. Também estou de olho na poesia, no teatro (onde as pulsões estão vivas). Não quero perder a conexão com tudo isso, apesar de tudo.
NR – Já pode falar de novos projetos?
CN – Cada trabalho é um fruto e nesse fruto existe a semente do próximo.
Estou com vontade de fazer Shakespeare por que A Alma Imoral, por incrível que pareça, me prepara para um texto desse autor, que é um exemplo de integração.
Considero a obra de Shakespeare humana e agora eu me sinto segura para fazer uma peça dele. Também tenho novos projetos e tudo está caminhando devagar.
Não gosto de falar e detalhar nada antes dos projetos se concretizarem.
Ano que vem A Alma Imoral volta para o Teatro Eva Herz, em fevereiro. A Lista ganhou um edital da Prefeitura do Rio de Janeiro para o segundo semestre e a novela Carinha de Anjo está no ar... E vamos que vamos, ¨que a fé não costuma falhar¨. (parafraseando Gilberto Gil).
FICHA TÉCNICA
Autor do livro A Alma Imoral – Nilton Bonder
Adaptação, concepção cênica e interpretação – Clarice Niskier
Supervisão – Amir Haddad
Cenário – Luis Martins
Figurino – Kika Lopes
Iluminação – Aurélio de Simoni
Música original – José Maria Braga
Preparação vocal – Rose Gonçalves
Direção de movimento – Márcia Feijó
Preparação corporal – Mary Kunha
Realização – Niska Produções Culturais
A Alma Imoral - São Paulo
De 20 de fevereiro a 11 de dezembro de 2016
Sábados, às 21h.
Domingos, às 19h.
Duração: 70 minutos
Faixa etária: 18 anos
Ingresso: R$70
Teatro Eva Herz - Conjunto Nacional
Endereço: Av. Paulista, 2073 - Bela Vista - São Paulo/SP
RESTAURANTE PIMENTA ROMÃ, PARCEIRO DE CLARICE E DO SITE DE OLHO NA CENA
AGRADECIMENTO ESPECIAL: VAL PIRES, PROPRIETÁRIA DO PIMENTA
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