O De olho Na Cena entrevistou os atores e o diretor. O excelente espetáculo fica em cartaz só até o próximo domingo, 2, no Tucarena
O texto inédito de Hélio Sussekind trata de um assunto singelo e delicado: a tentativa de diálogo, apesar das dificuldades da comunicação, entre um autista e seu pai.
O pai não consegue aceitar os limites que o autismo impõe ao seu filho e a peça caminha para a busca de uma reflexão sobre o medo, a discriminação e a exclusão social.
A relação entre pai e filho é estagnada. Existe, no entanto, a vontade do reencontro, existe a vontade de compreender e prosseguir para a superação do vazio que impera na vida dos personagens.
¨De alguma forma, as personagens dialogam com antigas fábulas infantis, uma espécie de João e Maria às avessas, onde o pai procura não deixar pista para que o filho jamais "retorne" ao ponto de partida¨, diz o release enviado à imprensa.
Luciano Chirolli e Marat Descartes, atores de grande experiência no teatro, dão vida ao pai e ao filho de maneira magistral. Dois grandes atores que têm sintonia plena em cena e conseguem transmitir todas as nuances dos personagens, os conflitos, o amor que impera e também o ódio que os atordoa em alguns momentos.
Direção primorosa, que valoriza o talento dos atores. A luz, a trilha e o cenário contribuem para dar sentido às cenas.
Um excelente espetáculo que, infelizmente, sai de cartaz (até 2 de Abril no Tucarena) e não tem previsão de volta.
Luciano Chirolli, Marat Descartes e Camilo Bevilacqua falaram sobre esse belíssimo trabalho.
Vale a pena conhecer o processo de criação desses grandes artistas, que estão envolvidos num projeto de extrema qualidade e sensibilidade.
Decidi deixar as entrevistas separadas porque as perguntas são praticamente as mesmas, mas como foram realizadas em momentos distintos, acredito que nesse formato o leitor irá aproveitar melhor as entrevistas. As conversas aconteceram na sessão de sábado, 25.
CAMILO BEVILAQUA
É ator e diretor gaúcho, que reside no Rio de Janeiro. Ele dirige o espetáculo em parceria com a também atriz e diretora Denise Weinberg. Foi ele quem idealizou o projeto após entrar em contato com a peça, via seu autor, Hélio Sussekind.
Bevilacqua fala sobre a execução do projeto, como foi trabalhar com a Denise e os atores, bem como alguns detalhes da direção e de sua carreira.
No momento, integra o elenco da novela Carinha de Anjo (SBT, personagem Pascoal). Na Globo, as novelas mais recentes: Sangue Bom, Amor à Vida e Sete Vidas.
O seu primeiro filme foi em 1979, República dos Assassinos, direção de Miguel Faria Jr. Zuzu Angel (filme) - direção: Sérgio Rezende; Vestido de Noiva, direção: Jofre Rodrigues; Guerra de Canudos, direção: Sérgio Rezende; Lamarca - direção: Sérgio Rezende e O País dos Tenentes, direção: João Batista de Andrade, estão entre os destaques.
Nanda Rovere - Como foi o nascimento do projeto?
Camilo Bevilacqua - Já estou com essa peça faz uns três anos na mão. Conheci o Hélio, que é o autor da peça, atuando numa peça dele chamada Recordar é Viver, com direção do Eduardo Tolentino e Sergio Brito no elenco. Viemos para São Paulo e ficamos em cartaz no Sesc Consolação. O Hélio, depois de um tempo, me deu essa peça para ler e num primeiro momento achei interessante e disse que era dificílima de montar porque a peça é truncada, é um moto contínuo de diálogo. Sugeri que fizéssemos leituras e realizamos duas no Rio. As reações foram maravilhosas e as pessoas queriam discutir sobre o assunto. Começamos a levantar o projeto com a ajuda da mãe da minha filha, que é produtora. Entramos com a Lei Rouanet e quando estávamos procurando teatro, o SBT me chamou para fazer Carinha de Anjo, aqui em São Paulo. Estou aqui há um ano e trouxemos a montagem para cá.
NR - O que mais chamou a sua atenção no texto?
CB - É teatro contemporâneo e ele não conta a história dos personagens, só pega um pedacinho da vida deles, pincelando a trajetória de vida do pai e do filho. O pai tem 70 anos e o filho tem 40, e é autista. Esse pai segura a carga de ter que cuidar sozinho do filho desde quando ele era criança. A peça mostra que nesse tipo de problema só o amor resolve. O mais importante na peça é o amor que o pai tem por seu filho porque, se não fosse isso, ele teria dado um tiro na cabeça, jogado o filho pela janela. Durante a pesquisa que eu fiz sobre esse assunto, vi várias histórias de pessoas que entregam o filho; li a história de uma mãe que se suicidou porque não aguentou...
NR - E como foi o início do processo de produção aqui?
CB - Falei com a Eliana Guttmann (fazemos juntos a novela) que ficou encantada com o texto e sugeriu a filha dela, Marcella, na produção. Marcella também ficou encantada e aceitou cuidar da peça.
NR - E a escolha do elenco e a parceria com Denise na direção?
CB - Como tivemos pouco tempo de ensaio porque eu estava fazendo a novela e os atores estavam fazendo outros trabalhos, chamei a Denise para me ajudar na direção. Ela foi a única pessoa que passou pela minha cabeça porque nos conhecemos há mais de 40 anos. Eu precisava de grandes atores e não me preocupava com o pai, mas estava preocupado com relação ao ator para fazer o filho. Denise sugeriu o Marat, que eu não conhecia no teatro, mas confiei na indicação dela. Com o Luciano Chirolli eu já havia trabalhado quando fiz a preparação de atores do espetáculo Hedda Gabler, direção do Walter Lima Júnior há uns 15 anos atrás. Pensei no Chirolli quando vi uma foto dele no Facebook e falei para a Denise, que nunca havia trabalhado com ele, mas o conhecia. Na hora ela aceitou a sugestão. Os atores são maravilhosos, todo dia é uma emoção. É muito bom trabalhar com bons atores.
NR - O que mais chamou a sua atenção nesses atores?
CB - Foi maravilhoso dirigi-los. Poucas vezes na vida trabalhei com atores tão dedicados. Todos os dias eles passam a peça toda, se massageiam. Deixei os atores à vontade. Eles foram improvisando e depois nós fomos lapidando as cenas, e fomos só tirando algumas coisas porque eles nos deram muitas informações.
NR - Fale sobre o seu processo de direção. Li que a luz e a trilha têm papel fundamental nesse trabalho.
CB - Espetáculo muito complexo e a luz e a trilha são essenciais. Claro que o mais importante de tudo são os atores. São dois homens andando o tempo todo dentro de uma floresta e a grande dificuldade que senti assim que li o texto foi como criar as cenas nesse lugar. Não queria uma floresta real, com árvores. A equipe é maravilhosa, Chris Aizner no cenário, Tunica na trilha e Wagner Pinto na luz. Tudo o que acontece em cena é visto pela ótica do autista, o som da floresta, o som da cidade por onde eles passam. Em cena, o que você verá são troncos de árvores cortados e que são a impressão de que tudo está sangrando.
NR - Você chegou a entrar em contato com autistas e as suas famílias?
CB - Não. Eu não queria muita aproximação para que os atores não se influenciassem e nem pegassem vícios de interpretação. A única coisa que pedi foi para os atores assistirem ao filme O Cérebro de Hugo, pois ali explica tudo, mostra como são os autistas, tem entrevistas com os autistas e com os pais e as mães dessas pessoas. Tivemos a colaboração de um amigo da Marcela que conversou sobre o assunto com a gente. Estou aqui só porque a peça que fiz em 1975, ela foi montada em Porto Alegre (sou gaúcho), e fez o maior sucesso. Ela foi dirigida pelo José Luis Gómez, espanhol, um dos grandes diretores europeus, e eu fiz o protagonista. Viajamos pelo Brasil todo e sempre com muito sucesso. Passamos pelo Rio para ficar 15 dias e a peça foi um estouro, um sucesso imenso, todos queriam conhecer a gente. Fomos para o Teatro João Caetano, que na época tinha 1500 lugares e lotava todos os dias. Depois viajamos e voltamos para o Rio com apresentações no teatro Opinião. Ficamos muito conhecidos, mas como estamos num teatro visado politicamente, proibiram a peça. Personalidades como Chico Buarque e Elis foram para Brasília para a liberação da peça; além disso, a peça era patrocinada pelo Instituto Goethe e chegaram a pedir para o governo alemão intervir... Conseguimos ficar em cartaz e tivemos todo o apoio da classe artística. Fiquei no Rio e fui trabalhar com o Cecil Thiré na primeira peça com a Lucélia Santos, uma peça comigo, Transe no 18, Lucélia e Milton Moraes. Depois desse trabalho resolvi morar no Rio. Depois trabalhei com Tônia Carreiro em o Doce Pássaro da Juventude e por isso estou aqui. Entre muitas outras peças importantes que eu fiz, Sábado, Domingo e Segunda, Tempos Fores, Doze Homens e Uma sentença, com Tolentino, Lima Barreto (ao terceiro dia). São tantas peças que é difícil lembrar de todas. São 47 peças no teatro, mais umas 10 como diretor. Vinte e quatro filmes entre longas e curtas no cinema. Na TV, não tenho a mínima ideia.
MARAT DESCARTES
MARAT estudou Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP. Também estudou teatro na Escola de Artes Dramáticas da USP.
Ator premiado, já participou de mais de 30 espetáculos, entre eles: Aldeotas, do seu amigo Gero Camilo, direção: Cristiane Paoli Quito; Oração Para Um Pé de Chinelo, de Plínio Marcos, direção de Alexandre Reinecke; os monólogos Primeiro Amor, baseado na obra do dramaturgo Samuel Beckett (Prêmio Shell de Melhor Ator) e O Natal de Harry, de Steven Berkoff, ambos com direção de Georgette Fadel; A Refeição, de Newton Moreno, dirigido por Denise Weinberg, entre outros trabalhos.
Marat também tem experiência na TV. O seu último papel foi na novela Totalmente Demais.
No cinema, fez mais de quinze filmes, entre eles, Quando Eu Era Vivo, Até que a Casa Caia, O Tempo e o Vento, 2 Coelhos, Trabalhar Cansa, É Proibido Fumar
NR - Fale sobre a criação de personagens que vivem uma relação tão delicada. Como foi o processo de preparação?
MD - Assisti a vários filmes e tentei entender como funciona o cérebro de um autista e foi muito bacana porque descobri que todo mundo quando nasce tem uma atividade cerebral gigantesca e qualquer bebê tem ouvido absoluto, e conforme vamos crescendo e interagindo com o meio ambiente, o cérebro seleciona o que está sendo usado e o que não está. O autista não faz essa seleção, ele continua para o resto da vida tendo milhões de sinapses ao mesmo tempo. Ele se volta para dentro de si mesmo porque recebe um mundo de informações e sensações - tudo ao mesmo tempo - e ele precisa dar conta de tudo isso. Por esse motivo, não suporta muito o toque, não consegue olhar para o outro e nem decodificar as emoções. Entender isso foi muito importante para a construção do meu personagem.
NR - O que me chama muito a atenção é que o autista mantém essa distância do próximo e o teatro exige que haja interação/integração entre os atores. Como foi isso?
MD – Para o autista, ao longo da vida essa aversão ao outro vai diminuindo. Li algumas teorias antigas que falavam que as pessoas se tornavam autistas por culpa das mães, que não tinham contato físico com os filhos, quando, na verdade, são eles quem não gostam de manter esse contato. Li sobre casos que o autista, no decorrer da vida, vai aliviando esse medo do toque e do olhar. Também soube de casos em que a criança só foi falar quando tinha uns seis anos de idade. O Luciano Chirolli, durante os ensaios, ficou aflito com isso, mas em alguns momentos eu olho para ele.
NR - Você tem uma técnica para criar os personagens? Como foi o processo de criação nesse espetáculo, já que Camilo disse que deixou vocês à vontade...
MD - Eu crio de uma maneira intuitiva. Crio a partir das informações do texto e na medida em que esse texto revelava um pensamento quase infantil, eu fui desenhando o personagem. Depois, assistindo aos vídeos, eu fui confirmando alguns detalhes, como o modo de andar quase na ponta dos pés, depois descobri que é uma característica do autismo. Eu tenho três filhas, uma com 16, outra de 7 e outra de 6, e trago, nesse personagem, referências das minhas filhas, porque a repetição que o autista tem é igual ao funcionamento do cérebro da criança (que repete para alimentar o cérebro, se acalmar e se sentir segura).
NR - Você acha que se tornou um pai melhor após esse trabalho?
MD - Eu aprofundei algumas coisas na relação que tenho com as minhas filhas, na medida em que eu fui percebendo o que leva a criança agir dessa forma.
NR - O que mais chama a sua atenção nesse texto?
MD - A peça transcende o amor entre pai e filho. Ela fala de uma relação de co-dependência, independente do personagem ser autista ou não. Por esse motivo, a peça toca qualquer pessoa, independente de se ter filho ou não.
NR - Fale um pouco desse encontro entre você e Luciano no teatro
MD - Num primeiro momento, quando eu li pela primeira vez, eu fiquei em dúvida se deveria fazer ou não a peça, o texto não tinha me tocado tanto e fiquei em dúvida se deveria fazê-lo, mas quando soube que era o Chirolli o outro ator, tudo mudou de figura. Nunca tínhamos trabalhado no teatro. Fizemos a série Tudo o que É Sólido Pode Derreter, da TV Cultura, (direção do Rafael Gomes), a Teia, da Globo, e o longa Estamos Juntos (do Toni Venturi), mas nunca contracenamos. Nós queríamos muito trabalhar juntos. O Luciano me chamou para participar da primeira montagem do espetáculo As Velhas, com ele e o Pascoal da Conceição, o texto era muito bom, mas a minha filha tinha acabado de nascer e o texto era muito forte para o momento em que eu estava vivendo. O Luciano é um ator muito tenso e presente. É muito gostoso bater ¨essa bola¨ com ele em cena e para mim está sendo um momento muito especial porque eu emendei uma novela na outra. Não deixei de fazer teatro, continuei apresentando o espetáculo infantil Felpo Filva, baseado no livro da Eva Funari, com a minha esposa, mas fiquei quase três anos sem entrar num novo processo de trabalho.
NR - Como é ser dirigido por Camilo e Denise, artistas com tanta experiência no teatro? Existe diferencial quando se é dirigido por quem é ator também?
MD - Com a Denise eu já havia contracenado em Oração Para Um Pé de Chinelo e depois ela me dirigiu no espetáculo A Refeição, do Newton Moreno, trabalhos de tirar o fôlego. A experiência foi incrível porque eles não têm a preocupação de marcar as cenas e nos deixaram muito soltos. Por serem atores, eles tiveram essa sensibilidade. Claro que em alguns momentos tivemos a necessidade de que eles nos guiassem, mas eles deixaram o nosso jogo em cena livre. Eu gosto muito dessa liberdade de criação.
NR - Verificando a trajetória de vocês, o drama esteve mais presente nos trabalhos de teatro e vocês já fizeram monólogos. Gostaria que falassem sobre as experiências de comédia drama e como é estar em cena sozinho.
MD – Eu gosto de fazer comédia, mas a vida chama para o drama. Quando eu fiz o monólogo O Primeiro Amor, por exemplo, eu estava numa fase em que eu queria falar alguma coisa, mas não sabia o que direito, e esse texto do Beckett caiu na minha mão... Fiquei muito tempo fazendo monólogo. Fazer monólogo é legal por um lado porque é mais fácil de ensaiar e viajar, mas uma hora cansa porque é um trabalho muito solitário. Depois eu fiz mais um monólogo, o Natal de Harry, mas logo em seguida eu fiz o infantil e aí pensei: Nossa, que legal fazer teatro com mais gente! e agora essa peça...
NR - No que você está De Olho (Na Cena)?
MD – Eu estou muito de olho nas prioridades dos governos, municipal, federal e estadual. Estou de olho nesse processo (muito preocupante) de congelamento do orçamento da cultura. Me preocupa não somente o descongelamento, mas na área da cultura estão baixando decretos sem nenhuma consulta à classe artística; tudo é feito de forma completamente autoritária. Estão desmontando tudo o que existia de política cultural, o projeto Piá, o projeto Vocacional e a própria Lei de Fomento. É preciso escutar as necessidades dos artistas e o povo, que vai consumir a cultura.
NR - Projetos que gostariam de citar?
MD – Eu devo estrear no dia 7 de maio o espetáculo infantil Bruxas, no Sesc Bom Retiro, que eu escrevi e vou dirigir. A montagem é baseada no livro de Roald Dahl. Estou gravando uma série da Universal Channel chamada Rotas do Ódio, que fala sobre a delegacia de repressão a crimes raciais e de intolerância e ainda este ano tenho um projeto com o Alexandre dal Farra, adaptação de Um Bonde Chamado Desejo, com direção do Ruy Cortez, com a Gilda Nomacce, a Ondina Clais Castilho e o Germano Melo. Um pouco mais para frente quero lançar um projeto que é a minha paixão, e no qual estou há cinco anos apostando: nada menos do que O Grande Sertão Veredas, com o Gero Camilo, que terminou a adaptação para mim e um grande elenco.
LUCIANO CHIROLLI
CHIROLLI é mineiro de Poços de Caldas. No final dos anos 80, formou-se na Escola de Arte Dramáticas da USP (1987) e, no mesmo ano, estreou profissionalmente na peça Leonce e Lena, de Georg Büchner e direção de William Pereira. Com esse trabalho, obteve os prêmios Governador do Estado e Mambembe de melhor ator.
É um dos fundadores, ao lado de Maria Alice Vergueiro e Fábio Furtado, do Grupo Pândega de Teatro. As Três Velhas, de Alejandro Jodorowsky e Why de Horse, com dramaturgia de Fábio Furtado, estão entre os trabalhos de destaque.
As Três Velhas apresenta a história de duas marquesas decadentes, octogenárias, Melissa (Luciano Chirolli – ganhador de prêmio Shell por esse personagem) e Graça (Pascoal da Conceição e depois Danilo Grangheia), vivem em uma mansão em ruínas,
devastadas pela fome e pelo abandono. Elas são vigiadas pela centenária criada Garga (Maria Alice Vergueiro). São estranhas figuras que revelam as suas tragédias pessoas e familiares, num melodrama grotesco (de acordo com a classificação do próprio autor).
Em Why de Horse, por sua vez, o ponto de partida foi o fato da morte da atriz e diretora Maria Alice Vergueiro em cena. A atriz estava em cena ao lado de Chirolli, Carolina Splendore, Alexandre Magno e Robson Catalunha.
Junto com Why de Horse, o ator esteve em cartaz com o monólogo Memórias de Adriano, texto de Marguerite Yourcenar, que apresenta uma biografia fictícia do imperador romano, direção Inez Viana.
Na TV, muitas participações: Haja Coração, Lado a Lado, Fina Estampa, Tempos Modernos e Páginas da Vida estão entre as novelas que fez na rede Globo, além das minisséries Mad Maria, JK e a Teia, que contou com a presença de Marat Descartes no elenco. Na Rede Bandeirantes, integrou o elenco da novela Dance Dance Dance e na TV Cultura participou da série Tudo o que é Sólido Pode Derreter (com Marat Descartes no elenco).
No cinema, Estamos Juntos, de Toni Venturi (também com Descartes), Getúlio, de João Jardim; Salve Geral, de Sergio Rezende e A Grande Noitada, de Denoy de Oliveira, entre outros.
Nanda Rovere - Como é interpretar o pai, que ama o filho, mas está tão cansado de tudo?
Luciano Chirolli (Luchi) - É um personagem com muitas camadas de amor. Amor e ódio estão muito ligados. Essas camadas propiciam que eu percorra o espetáculo com mais nuances. O amor não é tão explícito e nem o ódio; tenho que ter uma aceitação desse tipo de afeto que cercou a vida desses dois. São dois homens, não precisam ser necessariamente pai e filho. A peça fala de todo tipo de co-dependência, do momento em que você acha que o outro não te entende mais e você pergunta demais. Isso acontece nos casamentos e nas relações de família onde existem narcóticos... Esse filho poderia ser drogado ( com as sequelas das drogas), não precisava ser necessariamente um autista. E a família adoece também. Esse pai está doente. Por tudo isso eu achei o texto interessante, mas o mais interessante de tudo foi saber que o filho seria o Marat.
NR - Já que você citou o Marat, fale sobre o encontro entre vocês dois?
L - Marat é um dos maiores atores que eu já vi trabalhando. Ele é um grande ator na generosidade, na inteligência cênica e companheiro. Ele é rápido, em 3/4 horas de ensaio, ele ia fundo, esgotava as energias e no dia seguinte não tem nenhuma enrolação. Nós fazemos massagem um no outro e passamos o texto todos os dias.
NR - Perguntei pro Marat e agora questiono você, como foi trabalhar sem o olhar dele?
L - Eu estou muito acostumado a jogar e não ter o olhar dele foi muito difícil. O autista está sempre desviando o olhar, mas a nossa relação foi mais sensorial. A proximidade foi substituída por outro jeito de estar em cena. Eu gosto de vê-lo de longe, eu o observo, tem a raiva, o afeto, o amor, o carinho.
NR - Como foi para você ser dirigido pela Denise e pelo Camilo?
L - Ela é maravilhosa. Uma grande mestra de teatro, de teatro realista. Nunca tinha trabalhado com a Denise e o Camilo eu não conhecia. Aprendi com eles a observar alguns vícios de representação, alguns que a Denise soube pontuar muito claramente. Por exemplo, ela não deixa forçar uma emoção, porque podemos entrar no dramático e ele é muito chato. Se ela não vier, não tem problema.
NR - Como foi fazer simultaneamente Why de Horse e Memórias de Adriana, espetáculos excelentes e que estão entre os seus mais recentes trabalhos?
L - São linguagens tão diferentes. Um trazia uma linguagem performática e o outro era literário e dramática. Isso é o mais gostoso: ter duas peças tão diferentes em cartaz é um luxo.
NR - Você vem de trabalhos com a Maria Alice Vergueiro, como é estar ao lado dessa atriz?
L –. . Temos uma produtora e trabalhamos há 28 anos juntos (ela me dirigindo, eu a dirigindo ou a gente dirigindo e atuando juntos). Já produzi 10 espetáculos nesse período e sem patrocínio. As únicas peças que tiveram patrocínio foram as duas últimas. Quando ela fez O Alvo, espetáculo em que eu a dirigi em 1996, ela estava brilhante (ela ganhou o Shell). É um espetáculo dificílimo, texto do escritor austríaco Thomas Bernhard, que ninguém monta. A minha direção era delicada e ela estava perfeita, com ótima dicção e num papel certo na hora certa. Ficamos anos sem fazer nada, até que um dia, quando eu estava na Bandeirantes fazendo uma novela, ela me ligou e disse que tinha acabado de ler uma peça em espanhol e que tinha um personagem para mim, que me daria o Prêmio Shell. Perguntei o que era e ela disse que era uma velha (a peça chamava-se As Três Velhas, de Alejandro Jodorowsky)... e não é que ganhei o Shell? ! Era muito interessante!
NR - Deve ser muito instigante estar ao lado de uma mulher tão ativa, mesmo sofrendo com as limitações do Parkinson.
L - A Maria Alice é louca. Ela é muito ativa. O corpo está mais enrijecido, mas mentalmente ela está a toda. Ela me ensina que eu não devo desistir jamais. Estar perto dela é um aprendizado diário. Várias vezes já tive vontade de desistir (já cheguei até a morar na praia), mas quando penso nela, eu mudo de ideia.
NR - Então você já pensou em deixar o teatro?
L - Já, já pensei em largar o teatro, largar tudo, mas volto ao teatro porque ele é meu ganha-pão, porque não estudei outra coisa e acho que tenho talento (pelo menos dizem e eu acredito) e sou estudioso, mas não digo que o teatro é minha vida. O teatro foi a minha paixão quando eu fazia EAD (Escola de Arte Dramática) e morava no Crusp e almoçava no bandejão. Naquela época o teatro era a minha vida, mas isso mudou quando entrei na carreira profissional e fui ficando chocado com a realidade do nosso teatro e da nossa cultura brasileira. Mas eu tive sorte. Sorte de trabalhar, mesmo fazendo teatro alternativo, com grandes atores globais, como Diogo Vilela, Maria Padilha, Débora Bloch, Enrique Diaz...
NR - E sobre os projetos futuros?
L - Sou um homem de sorte. Meu projeto foi escolhido para ocupar o CCBB este ano. Farei com a Georgette Fadel um espetáculo que traz poesias e canções de Maiakoviski (Vladimir Vladimirovitch Maiakovski).
No que você está De Olho (Na Cena)?
L – Estou De Olho onde o discurso tem pegada. Estou De Olho nos movimentos populares de teatro, principalmente no Slam, do Grupo Bartolomeu de Depoimentos, da Luaa Gabanini, onde 1500 pessoas vêem os depoimentos na Praça da Sé de pessoas que dominam a palavra e a métrica. Eles dão o recado e agrupam as pessoas na rua. Talvez seja o teatro que vai ficar mais forte nos últimos tempos, pois não é preciso pagar para entrar. O grupo reúne uma galera que vai à loucura, que pega no microfone e na rima diz o que pensa. Estou De Olho onde está concentrado o depoimento e a receptividade de verdade. Também estou De Olho na companhia Hiato. A qualidade da Mit caiu só que o problema não é da curadoria (é a falta de grana), mas temos que continuar persistindo em ter um festival internacional de teatro aqui.
Ficha Técnica:
Autor: Hélio Sussekind
Direção: Camilo Bevilacqua e Denise Weinberg
Elenco: Marat Descartes e Luciano Chirolli
Iluminação: Wagner Pinto
Figurinos: Helena Afonso
Cenários: Chris Aizner
Trilha sonora: Tunica
Fotos de João Caldas
Produção: Marcella Guttmann
Assessoria de Imprensa: Marra Comunicação
Realização: Fixação Marketing Cultural
Serviço:
Curtíssima Temporada no Teatro Tuca Arena
Endereço: Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes
Fone do teatro (Administração): (11)-3670-8453
Temporada: De 10 de Março a 02 de Abril – de Sexta a Domingo
Sexta-feira: 21h00: Ingressos a R$ 70,00
Sábado: 21h00: Ingressos a R$ 80,00
Domingo: 18h00: Ingressos a R$ 80,00
Vendas por telefone ou internet: Ingresso Rápido
- Aceita todos os cartões de crédito.
- Tel: (11) 4003-1212
- Site: www.ingressorapido.com.br
Bilheteria do teatro (Programação do TUCA)
- Horário de Atendimento: Terça a Domingo das 14h às 20h
- Formas de Pagamento: Amex, Aura, Diners, Dinheiro, Hipercard,
Mastercard, Redeshop, Visa e Visa Electron.
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