BA Em Cena
¨É UM MILAGRE QUANDO ENTRO COM OS ATORES EM CENA ATRAVÉS DAS MINHAS AÇÕES. É GLORIOSO¨, DISSE. ¨AS ARTES PERTENCEM A UMA OUTRA ENFERMARIA, QUE NÃO É A DOS NORMAIS¨. GABRIEL VILLELA
¨O ARTISTA MUDA UMA ERA¨. GABRIEL VILLELA
Uma conversa muito produtiva sobre teatro, que com certeza colaborou para que os alunos tenham cada vez mais a certeza do quanto é importante o estudo, a dedicação e a humildade. E também o quanto o teatro com poesia - e valorizando as nossas riquezas culturais - pode contribuir para um futuro melhor aqui no Brasil.
¨É uma partitura ouvir Gabriel Villela falar¨ – Tuna Dwek
UM POUCO DO ENCONTRO ENTRE GABRIEL VILLELA E OS ALUNOS DA FACULDADE DE BELAS ARTES (ATRAVÉS DE IMAGENS DO ZOOM).
Realização Prof. Guilherme Bryan e Faculdade de Belas Artes de São Paulo
Curadora e madrinha Tuna Dwek.
Histórias preciosas e detalhes do processo de criação de um diretor, cenógrafo e figurinista que nos toca pela magia e poesia. Um artista que apresenta nos seus trabalhos a riqueza da cultura popular e das Minas Gerais.
Gabriel Villela começou a conversa dizendo que estava de frente para a Serra da Boa Esperança, no seu sítio no distrito de Itaci, Carmo do Rio Claro/MG. Com a benção de Lamartine Babo.
Para Gabriel Villela, não foi uma opção ser artista. O teatro é a sua vida, nunca quis ser outra coisa que não fosse artista.
Começou a conversa contando sobre a importância da faculdade, da formação acadêmica na sua formação artística. Disse que entrou na USP despreparado e em busca do conhecimento. Sempre quis sair em Minas para obter o conhecimento acadêmico. Prestava atenção em tudo e passava horas na biblioteca estudando, afoito pela teoria e pelo ensinamento dos mestres. ¨Tinha a necessidade de entender uma profissão honrosa e ao mesmo tempo complexa", disse.
Contou que, como a palavra é de suma importância no teatro, a Gramática de Cegalla sempre o acompanhava debaixo do braço. ¨A interlexão de textos é essencial para o entendimento dos clássicos¨, definiu.
Contou que no pós pandemia tem vontade de se dedicar aos clássicos e que no confinamento em seu sítio está relendo a Ilíada e buscando o entendimento dos argumentos anteriores da feitura dos versos.
¨Vontade de fazer um clássico e encontrar com os amores do teatro¨, declarou.
Salientou que na sua trajetória teve a experiência de levar ao palco textos de autores mais modernos e muitos clássicos, como Goethe, Shakespeare e Pirandello, sempre respeitando as palavras do autor e usando como premissas essenciais para que isso ocorra o amor e a dialética.
A energia dos seus trabalhos vem dos clássicos e traz também o talento de dramaturgos como Dib Carneiro Neto e Alcides Nogueira - Tide. "Estamos moendo a carne do homem", afirmou o diretor com relação a obras que tratam da existência humana de uma maneira avassaladora.
Os dramaturgos Alcides Nogueira e Dib Carneiro Neto (consciência social da palavra em Salmo 91, baseado no livro Estação Carandiru de Drauzio Varella) participaram da conversa e o diretor fez comentários sobre textos teatrais que eles dirigiram.
A Ponte e a Água de Piscina (de Nogueira) extrapola o realismo, assim como Ventania, outro texto de Tide que foi escrito em homenagem ao dramaturgo Zé Vicente, autor de Hoje é dia de Rock, que ganhou uma montagem belíssima, explorando com maestria a saga de uma família mineira que está se desfazendo.
Também foram abordados os laços de Minas na montagem de Hoje é Dia de Rock, que Villela dirigiu em 2017 – produção do Centro Cultural Teatro Guaíra, de Curitiba). Villela contou que levou para o palco os seus laços com as Minas Gerais, especialmente com Ventania, cidade natal de Zé Vicente e vizinha a Carmo do Rio Claro. Trabalhou com a iconografia cristã, muito presente em Minas, e com detalhes que remetem às criações de Aleijadinho.
No momento em que surgiu a pandemia, o diretor estava em Campinas dirigindo Cordel do Amor sem Fim, de Claudia Barral, com o grupo Os Geraldos. Disse que esse texto traz muitos traços que remetem a momentos de transcendência do espetáculo Ventania, visto que a trama do Cordel do Amor Sem Fim está ambientada na beira do Rio São Francisco, enquanto a cidade de Ventania está situada ao lado da Serra da Canastra, nascente desse mesmo rio.
Tuna Dwek lembrou o quanto o imaginário de Minas Gerais, terra natal do diretor, está presente nas suas criações. Um imaginário povoado de causos incríveis, como o disco voador que dizem ter sobrevoado Carmo do Rio Claro no dia do seu nascimento. ¨Minas é um estado de suspensão poética onde tudo que se delira é verdadeiro. O mineiro acredita na fábula", afirma Gabriel Villela.
Questionado sobre o sonho e o delírio na sua criação, citou o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez para dizer que tudo o que ¨Gabo¨ cria é um delírio relacionado ao realismo fantástico, e que assim como na criação literária do escritor, o seu imaginário no teatro também está relacionado ao status do sonho e ao delírio poético apurado de um artista. Disse que assim como Don Quixote, precisa de alguém que segure as suas pernas para não correr o risco de mergulhar num delírio profundo.
Pediram para Villela falar sobre a importância de alguns autores brasileiros, entre eles, Nelson Rodrigues.
Villela salientou que Nelson Rodrigues rompeu a estrutura do teatro e que junto a Artur Azevedo, Jorge Andrade e Plínio Marcos forma a ¨ossada que nos faz pensar sobre a integridade cênica¨.
A antropóloga da voz Francesca della Monica estava presente no evento e Tuna fez questão de comentar a qualidade do seu trabalho e a parceria com Villela.
¨Francesca é uma jóia que nasce na sapiência italiana. Ela conhece muito o Brasil e introduziu um novo pensamento".
O diretor a elogiou: ¨Quando ela abre a boca só sai belezas e ela vira tudo para baixo a partir de um entendimento clássico pautado pelos seus estudos¨. Frisou, que com a amplificação da voz, o corpo do ator torna-se o corpo glorioso de uma obra total.
Villela salienta sempre a sua apreciação pela tragédia grega e montou Hécuba, de Eurípedes, com a sua delicadeza habitual, sem deixar de lado a força da obra. A atriz Walderez de Barros viveu a protagonista.
Vale frisar que Gabriel Villela estava na companhia de artistas que são os seus parceiros hoje, ou que já estabeleceram parcerias com o diretor: Alcides Nogueira, Claudio Fontana, Dib Carneiro Neto, Francesca Della Monica, atores dos Geraldos, Rodrigo Audi, Walderez de Barros, Vivien Buckup.
Villela foi tecendo a sua experiência profissional com a ajuda dos artistas e num certo momento, disse uma linda frase sobre Walderez, que fez Hécuba, e Tuna Dwek, no espetáculo Troilo e Créssida, personagem Cassandra, texto de William Shakespeare e direção Jô Soares.
O diretor disse que as atrizes possuem a voz da tragédia grega. Um momento muito bacana porque são duas atrizes que merecem o elogio e se dedicam ao teatro.
Tuna, como curadora do BA Em Cena, ajudou o Prof. Guilherme Bryan a guiar a conversa; Walderez estava como convidada.
O espetáculo Estado de Sítio, de Albert Camus, também foi abordado na conversa.
Montado em 2018, foi um espetáculo premonitório, visto que fala da peste que assola Cádiz, na Espanha. Em cena, A Peste (Elias Andreato) e a Morte (Claudio Fontana, que também cuidou da produção) são os responsáveis por impor o medo numa sociedade controlada por ações autoritárias. É um espetáculo simbolista que fala da força nefasta de um cometa e nos remete aos dias de hoje, da pandemia, com a passagem de um cometa esses dias, inclusive.
O diretor declarou que através de Estado de Sítio foi possível se irmanar com as dores universais e que pagaremos um alto preço por não estarmos reverenciando os mortos, com rituais, nesse tempo de pandemia.
Com certeza, um dos momentos mais preciosos da carreira de Villela foi o sucesso, no Brasil e exterior, do espetáculo Romeu e Julieta, com o Grupo Galpão. O professor Guilherme Bryan perguntou sobre a experiência de levar Romeu e Julieta para o espaço de William Shakespeare.
O artista falou sobre a receptividade do público quando foram apresentar a peça no Globe Theatre, em Londres, espaço de Shakespeare. Flor Minha Flor, canção icônica desse espetáculo, foi cantada pelos espectadores londrinos e a montagem aplaudida calorosamente.
Com o seu jeito poético e cativante de contar os causos de sua vida e trajetória, brindou os presentes com uma história que evidencia o quanto a presença do Brasil no espaço foi especial. Antes do ¨seu¨ Romeu e Julieta, quem ocupava o palco do Globe era a reconhecida atriz Vanessa Redgrave.
Contou que eles hastearam a nossa bandeira e esse momento ocasionou momentos de emoção.
Dois brasileiros estavam em um barco e quando viram a bandeira brasileira hasteada correram para ver de perto o que estava acontecendo. Num certo momento, um pequeno acidente com o barco fez com que eles chegassem ao Globe ajoelhados, mas felizes.
Outro fato marcante foi que presidiárias que estavam encarceradas num lugar próximo ao Globe também ficaram encantadas e pediram a música da peça. Villela chegou a receber uma carta com comentários sobre Romeu e Julieta.
Em Dresden, na Alemanha, Villela disse que também presenciou um fato marcante referente ao grande sucesso de Romeu e Julieta. O espetáculo foi eleito o melhor do Festival do qual estavam participando e recebeu como prêmio um presente inusitado: na morte dos jovens enamorados, cena final do espetáculo, uma escavadeira jogou pétalas nos atores.
O professor Guilherme Bryan também perguntou o que é estar em cena para o diretor.
Villela disse que não gosta de adentrar no palco porque lá é o espaço sagrado do ator. Só pisa no palco para realizar as suas ações como diretor. ¨É um milagre quando entro com os atores em cena através das minhas ações. É glorioso¨, disse. ¨As artes pertencem a uma outra enfermaria, que não é a dos normais¨, completou.
Sobre a criação de figurinos e cenários, ressaltou que cria linhas com delicadeza. O figurino é um fio muito delicado e que precisa ser tecido com muita presteza.
Com a arte popular e o imaginário de Minas, o diretor aprendeu a pegar algo de valor banal e dar um valor nobre. Quem acompanha as suas criações sabe como isso acontece.
Em Salmo 91, por exemplo, o choro do presidiário é mostrado através de uma cafeteira coando café. É a resignificação de objetos, os quais ganham um valor mágico no palco.
O diretor disse que aprendeu muito com a lendária Tia Olímpia de Ouro Preto, que usava combinações exóticas e coloridas, numa sobreposição de roupas e acessórios (um grande exemplo do quanto o imaginário mineiro o inspira, ensina e encanta).
Com relação ao cenário, sempre cita a importância de JC Serroni e disse que Irineu Chamizo, cenógrafo e figurinista, que trabalhou com Antunes Filho em Nelson Rodrigues - O Eterno Retorno, sempre foi uma grande fonte de ensinamento e inspiração.
Num certo momento da conversa, devido à riqueza de assuntos abordados, não foi possível anotar os detalhes de todas as falas e as histórias contadas, mas foi marcante a citação do diretor de que o teatro é uma aula magna de apreciação e que a falta de atenção à arte é que gera momentos sombrios como o que estamos passando.
Mesmo com tantos percalços, a nossa arte é de um valor imenso e estar com Gabriel Villela é um privilégio.
Ao abordar o seu amor pelo teatro, Villela fala com a alma de um artista que valoriza a cultura popular e realiza os seus trabalhos a partir do imaginário mineiro, tão presente na sua vida, sobretudo na sua infância e adolescência em Carmo do Rio Claro, a sua cidade natal. Estão marcadas em sua vida e em sua arte as lembranças de sua mãe bordadeira, sua tia que tinha o ateliê de bordados e costura que tanto o encantaram, a família toda envolvida com a arte, seja através do bordado, da música ou da literatura.
Enfim, temos nessa quarentena muitos momentos especiais. Entre eles, esse encontro de discussão sobre o teatro e que evidencia a trajetória de um artista que merece todos os aplausos por suas criações teatrais bordadas e costuradas com amor, precisão e delicadeza.
|