Live Claudio Fontana
@ecpinheiros
Núcleo de Teatro/SP
CLAUDIO FONTANA é sócio do Esporte Clube Pinheiros desde criança e foi lá que descobriu o amor pelo teatro.
Como tudo começou:
Ele frequentava salas de espetáculos, mas nunca tinha pensado na arte como profissão. Não cursou uma escola de teatro e a sua formação como artista aconteceu no Núcleo de Teatro do Esporte Clube Pinheiros.
Ele fazia esportes e competiu no atletismo, pelo clube. Chegou a ser campeão brasileiro na sua categoria 4x400.
Vale ressaltar que até hoje Claudio Fontana tem forte ligação com o esporte e leva os seus ensinamentos para o seu ofício de ator: "O esporte nos ensina a lidar com os nossos limites, impõe disciplina e é fundamental na formação do indivíduo", declara.
O teatro:
Contou que entrou para o teatro quando se desentendeu com o técnico do atletismo e soube que havia uma vaga de ator no curso de artes cênicas.
A partir desse momento, não parou mais de atuar e, em conjunto com as atividades do teatro, continuou no atletismo, cursou faculdade e começou a trabalhar na área de marketing.
Silnei Siqueira (in memorian) foi o seu primeiro mestre, e depois Silvia Siqueira também foi marcante no início da sua presença no palco. Uma curiosidade: estreou no teatro infantil fazendo um macaco.
"Silnei Siqueira foi um anjo que me abraçou no teatro", diz o ator.
O encontro com o diretor Gabriel Villela foi o pilar para que ele optasse por dedicar a sua vida ao tablado.
Fontana e os seus colegas do núcleo de teatro contrataram o diretor (quando ele ainda era estudante de direção teatral na USP).
Com ele, Fontana fez os espetáculos A Falecida, de Nelson Rodrigues, O Santo Milagroso, de Lauro Cesar Muniz e O Mambembe, de Artur Azevedo.
Em 1990, Villela dirigiu Vem Buscar-me que Ainda sou Teu, de Carlos Alberto Soffredini, e o chamou para integrar a montagem porque ele tocava acordeon. Na peça, a sua personagem não tinha fala, mas ele era um clownque costurava as cenas com o seu acordeon, ajudando a tecer as mazelas e as belezas do artista mambembe. Cenas de uma grande beleza. Foi a sua estreia no teatro profissional com prêmio de melhor ator revelação.
Foi por causa dessa peça que Fontana foi convidado, por Silvio de Abreu, para fazer TV e decidiu se dedicar totalmente à carreira de ator. No entanto, nunca abandonou de vez o marketing porque usa premissas dessa área para as suas ações na produção.
Questionado sobre o seu processo de aprendizado e aprimoramento da atuação, ressaltou:
"O ator está sempre em estado de aprendizado. Ele precisa de conhecimento e técnica e sempre estuda para buscar o seu aprimoramento", frisando que o estudo é o principal, mas talento, vocação e sorte também contribuem para a obtenção do sucesso na profissão.
Para Fontana, o teatro educa e aprimora o conhecimento, e a maior beleza em ser ator é conseguir sensibilizar o espectador através do riso e do choro.
É para conseguir esse feito que ele está sempre em busca de desafios e se dedicando ao aprendizado constante.
Para que essa relação mágica entre ator e espectador aconteça e o personagem ganhe a empatia da plateia, é necessário ler muito o texto, buscando sempre compreender as informações do autor, ouvir o diretor e a partir daí deixar a intuição aflorar.
Fontana é um ator que interpreta com o olhar, cativa e emociona através de uma primorosa performance de corpo e voz.
Estado de Sítio foi o seu último espetáculo, 2018/2019, como A Morte, que, ao lado da Peste, leva a dor e o autoritarismo para a população de Cádiz, na Espanha.
Sobre o seu processo de criação nessa montagem premonitória, com direção de Villela, Fontana expôs que só entendeu como era a voz e o corpo da personagem quando vestiu a máscara da Morte.
Esse é um fato que mostra o quanto cada personagem que Fontana vive traz o valor de um artista que está sempre em busca de desafios e tem a leitura como o meio mais eficaz para o seu crescimento na profissão. Sempre faz questão de mostrar que o ofício de ator é precioso e, ao mesmo tempo, árduo, exigindo muita disciplina, dedicação e estudo.
A apresentadora Ana Paula Adami pediu para o ator falar um pouco sobre a experiência de dividir o palco com Paulo Autran, em Adivinhe quem vem para Rezar, de Dib Carneiro Neto - 2005/2006.
A ideia de chamar Autran foi de Claudio, que era o responsável pela produção. Juntos, esses dois grandes atores encenaram o reencontro entre pai e filho. A peça, que falava sobre as dificuldades de relacionamento, teve um papel essencial na vida particular de Fontana, pois foi a partir desse trabalho que ele começou a se aproximar mais de seu pai.
Sobre a experiência de atuar ao lado de um dos maiores nomes do nosso teatroem todos os tempos:
"Trabalhar com o Paulo foi uma escola de produção. Foi uma aula de entendimento do texto e de atuação", elogia.
A peça ¨Adivinhe¨ foi também um reencontro com o teatro do "Pinheiros", visto que eles a encenaram para os sócios na sede do clube.
A apresentadora também pediu detalhes sobre a sua participação no espetáculo Feliz Ano Velho, texto de Marcelo Rubens Paiva (direção de Paulo Betti).
Para o ator foi muito produtivo viver a história de um moço muito jovem que se torna tetraplégico após um acidente.
O que mais o marcou durante esse trabalho foi a convivência com Paiva e a maneira com a qual ele encarava a sua deficiência, sempre de bem com a vida e explorando com muita força os limites de um cadeirante, dirigindo, por exemplo, o seu próprio carro e se locomovendo sem a ajuda de ninguém.
Um fato que Fontana já tinha relatado para a publicação no site De Olho Na Cena merece menção:
Viajando com o espetáculo, ele e Denise Del Vecchio se encontraram, casualmente, com uma turma de atletas cadeirantes e os convidaram para uma sessão da peça.Para a alegria de ambos, eles aceitaram o convite e um deles, após a sessão, disse que a interpretação de Fontana acabara de mudar a sua vida: ele, que nunca tinha conseguido aceitar a sua deficiência, percebeu naquele dia que era possível ser feliz!
É o poder transformador do teatro no qualFontana sempre acreditou. "O espectador tem que estar aberto a receber o conteúdo e à imaginação", declarou, ressaltando que o teatro simbolista tem especialmente o poder de aprimorar o dom de imaginação do ser humano.
Citou a direção de Gabriel Villela, que através da poesia aguça a imaginação do ator.
Como exemplo, contou que no espetáculo Um Réquiem Para Antônio, de Dib Carneiro Neto, bolas de sinuca se transformavam em notas musicais de Mozart, uma cena de pura magia protagonizada pelo pianista Fernando Esteves, que executava ao vivo a trilha sonora.
Indagado sobre qual o seu sonho, o ator e produtor disse que deseja que todos voltem a sonhar quando a pandemia acabar.
Também almeja que as pessoas compreendam a cultura como prioridade (porque a cultura é a área mais desrespeitada neste momento!).
Para finalizar a conversa, Fontana agradeceu a todos que contribuíram para a sua formação como artista.
Disse que o Esporte Clube Pinheiros, além da valorização dos esportes, tem um setor cultural muito importante.
Fez também questão de elogiar o Clube Pinheiros por fomentar um núcleo de teatro amador invejável, equiparado ao profissional, devido à qualidade dos atores e diretores - e que precisa ser incentivado cada vez mais.
Essa é uma história de vida que prova o quanto é valioso fazer o que amamos.
Claudio Fontana tinha um futuro promissor na área corporativa, mas a segurança financeira não era essencial para a sua felicidade; o que o faz feliz é a possibilidade de subir no palco e levar a arte para as pessoas.
|