LIVE CLAUDIO FONTANA – ATOR E PRODUTOR
Live do ator e produtor Claudio Fontana realizada por Marcelo de Freitas
@artecommarcelodefreitas
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“A CULTURA É A IDENTIDADE DE UM POVO. ARTE É RESPIRO E OTIMISMO". CLAUDIO FONTANA, ATOR E PRODUTOR DE TEATRO.
Questionado sobre como descobriu a vocação para as artes, disse que o interesse surgiu desde quando era criança, porque sua mãe é pianista e ele estudou acordeon e piano.
Contou que era atleta no Clube Pinheiros e, quando viu um aviso sobre o núcleo de teatro, decidiu, como hobby, participar (meados dos anos 80). Foram seis anos no Núcleo de Teatro do Clube Pinheiros.
O que era distração e um meio de desinibição se transformou em amor. Nunca tinha pensado em ser artista profissional e trabalhava como gerente de marketing em uma multinacional.
Até Vem Buscar-me que Ainda sou Teu, de 1990, com direção de Gabriel Villela (por quem foi dirigido também no Clube Pinheiros), se dividia entre a empresa, o atletismo e o teatro.
A paixão pela atuação, no entanto, falou mais alto, e quando foi convidado para fazer a novela Deus nos Acuda, de Sílvio de Abreu (1992), deixou o futuro promissor, com segurança financeira, para dedicar-se ao ofício que lhe traz felicidade. E Claudio é um dos nossos grandes atores! Sábia decisão!
Desde os tempos do Clube Pinheiros, em meados dos anos 80, Cláudio Fontana mantém com o diretor Gabriel Villela uma frutífera parceria profissional como ator e produtor.
Sobre Villela, declarou:
“Trabalhar com Gabriel Villela é um aprendizado constante. O ator precisa estudar muito, ler, saber falar o português para compreender o que diz no palco, e ao lado de Gabriel a possibilidade de estudo é gigante, ele é muito culto", elogiou.
Contou que os ensaios começam na mesa com leituras para o entendimento do texto e da época na qual a história se passa. Um processo de trabalho que proporciona ao ator subsídios importantes para a criação dos personagens.
Além disso, destacou que o diretor valoriza a imaginação do público através de metáforas e símbolos. Como exemplo, citou a montagem de Macbeth, em 2012, texto de William Shakespeare, no qual o sangue era representado por um fio de lã vermelho. Segundo Fontana, Gabriel transforma a metáfora em poesia e assim a imaginação aflora.
O arrebatador Estado de Sítio, 2018, foi muito elogiado pelo apresentador, que destacou o quanto o texto é atual.
Fontana explicou que a encenação foi premonitória e a decisão de montar o texto aconteceu após Villela presenciar a ocupação no Rio de Janeiro pelo exército, durante o governo Temer.
É uma obra que fala do autoritarismo e ganhou os palcos no momento em que os pensamentos de direita de Bolsonaro estavam ganhando eleitores. Neste sentido, salientou o quanto a arte (maravilhosa) espelha o que vivemos, visto que Camus fala do conservadorismo e a trama tem tudo a ver com o que o Brasil vive hoje.
Estado de Sítio foi um momento especial da carreira do ator, e vale muito assistir a entrevista para ouvir mais detalhes sobre a peça e o processo de criação da sua antológica personagem, A Morte.
Outro trabalho lembrado pelo apresentador foi Boca de Ouro, 2017, com direção de Villela e produção de Fontana (no palco como Leleco).
Sobre esse excelente espetáculo, Fontana disse que sempre admirou o dramaturgo Nelson Rodrigues, mas só o conhece com profundidade quem encena os seus textos.
Destacou que o maior desafio foi interpretar três versões do Leleco, o qual era apresentado ao público através da personagem dona Gugui, ex-amante de Boca de Ouro.
"Interpretar Nelson é obrigação de todo ator brasileiro. Ele reflete o nosso universo através das nossas tragédias do dia a dia", pontuou.
Afirmou também que quando os estrangeiros entram em contato com o dramaturgo ficam embasbacados ao constarem que as suas tragédias dizem muito de como é o nosso país.
Adivinhe quem Vem para Rezar, direção de Dib Carneiro Neto, 2005, também é sempre lembrado por quem entrevista o ator e produtor.
Uma linda interpretação realizada por Fontana e Paulo Autran.
Uma doce lembrança que levava para o palco uma história muito sensível de reconciliação entre pai e filho.
Fontana sinaliza que o texto é muito bonito por mostrar a alma de dois personagens masculinos revendo o passado num mundo em que as mulheres têm mais facilidade para expor os sentimentos (geralmente existe muito mais abertura entre mãe e filha).
Sempre que Claudio Fontana fala de como foi conviver e atuar com Paulo Autran, fala com muito carinho e existe emoção na sua voz.
Lembra do quanto era prazeroso estar com um artista que "era mestre das palavras". Destaca que era vibrante conviver com ele desde o trabalho de mesa, momento em que pontuava precisamente o que poderia ser cortado no texto para a encenação fluir melhor.
Uma curiosidade é que durante a temporada carioca da peça era Fontana quem levava o amigo de cena para almoçar na casa de Tônia Carreiro, e isso era para ele um presente, porque era bonito estar diante de dois grandes atores, que cultivavam uma longínqua amizade, e era também uma aula de teatro!
Na conversa também foi abordada a experiência na TV.
Quem conhece Claudio Fontana sabe que nunca a fama o deslumbrou. Ele frisou que sempre a sua presença na TV foi consequência do seu trabalho no teatro.
"Na TV você encontra colegas, faz amizade e é gostoso de entender a dinâmica da TV", disse.
Um aprendizado importante para aprender a lidar com a câmera, mas a sua grande paixão é mesmo o teatro, pois a TV acaba sempre chamando o ator para interpretar sempre o mesmo tipo de papel, enquanto no teatro é possível viver os mais diversos personagens.
Não deixou de citar, no entanto, trabalhos marcantes por apresentar temáticas diferenciadas e personagens instigantes, como Rei Davi (2012), na TV Record, Um Só Coração (2004), na TV Globo, e As Pupilas do Senhor Reitor (1995), novela do SBT.
A arte na pandemia também foi um assunto abordado. Marcelo de Freitas pediu para o ator falar um pouco sobre o futuro do teatro.
Para Fontana, apesar da arte ser tão desrespeitada, o futuro do teatro pós pandemia será promissor porque as artes cênicas já passaram por épocas piores.
Salientou que vivemos uma peste sanitária e também política, com falta de investimento na cultura, mas que deseja que a pandemia acabe com a cegueira das pessoas e elas entendam que investir em arte é salvar um povo da sua falta de identidade. " As pessoas precisam entender o planeta, valorizar o meio ambiente e apoiar a cultura", afirmou o ator e produtor.
Defendeu a formação de plateia subsidiada pelo governo para que a população tenha acesso gratuito ao teatro (porque na sua visão, certeira, sobre o poder da arte, “ teatro é educação, respiro, otimismo e tem o poder de nos recuperar do caos”!).
Uma observação muito pertinente foi sobre o quanto seria importante se os governantes criassem companhias de teatro, como ocorre especialmente nos países europeus.
O maior sonho de @claudiofontanaator é que as pessoas comecem a valorizar mais a arte após a pandemia - a arte que tem o poder de nos recuperar de toda a dor pela qual estamos passando atualmente.
Segundo Fontana, falar sobre o fazer teatral nesses tempos sombrios é o que mais lhe dá ânimo.
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