Criado em 2012, o Grupo Esparrama tem como base de pesquisa o estudo do palhaço e das estruturas cômicas na rua e no palco, com trabalhos voltados para adultos e crianças. A primeira produção teatral foi 2POR4, concebida para o palco.
O grupo Esparrama realiza um trabalho que chama a atenção pela originalidade: espetáculos encenados na janela de um prédio localizado no Minhocão ( o elevado Costa e Silva).
Alguns dos integrantes do grupo moram há dez anos no apartamento onde a apresentação acontece e resolveram colocar em cena as suas percepções sobre o cotidiano de um lugar que representa a correria das grandes cidades ( nos dias de semana o movimento de carros é absurdo com muita poluição e barulho; aos domingos o espaço se transforma num lugar de lazer.
O objetivo é contribuir para que o Minhocão seja um local de arte e cultura.
A estreia aconteceu com a montagem denominada Esparrama pela Janela, que traz, na forma de esquetes, personagens que vivem no Minhocão, entre eles, uma menina que vive num mundo imaginário de contos de fadas; duas mulheres que vivem na janela bisbilhotando a vida alheia e um casal chamado Amaral e Gurgel.
No segundo trabalho no Minhocão, Minhoca na Cabeça, uma menina vem morar em uma cidade grande e fica abismada com o movimento e a violência que presencia. Nasce uma minhoca em sua cabeça. A sua mãe quer que ela saia pra brincar, fazer amizades, mas ela não consegue.
Assistindo aos espetáculos dá para perceber que o grupo já conquistou admiradores que residem na região, além de pessoas que residem em todos os cantos da cidade, claro. Além disso, o grupo conquistou também espaço na mídia e o reconhecimento da crítica com indicações ao Prêmio Femsa.
A linguagem é acessível para todo o tipo de público. O bom humor, aliado a uma trilha sonora animada e às cenas criativas, cativa espectadores de idades variadas.
O diretor Iarlei Rangel, formado pela Unesp em Licenciatura na área de Teatro, é um dos fundadores do Grupo Esparrama e já produziu espetáculos de outros grupos como a Companhia do Miolo, a Cia. Paulicea de Teatro, a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico e a Cia. Circo de Bonecos .
Como diretor, assinou a primeira montagem de Meio dia do fim da Cia. Pessoal do Faroeste e fez assistência de direção em Trilogia Degeneradan e Os Crimes de Preto Amaral.
ENTREVISTA COM O DIRETOR IARLEI RANGEL
Nanda Rovere - Como surgiu a ideia de encenar espetáculo no minhocão? Fale sobre o processo de criação dos espetáculos e objetivos do grupo com esse trabalho.
Iarlei Rangel - Dois integrantes do Esparrama moram neste apartamento há cerca de onze anos. Desde a criação do grupo, o projeto da Janela estava na lista de desejos do coletivo. Após a estreia do nosso primeiro espetáculo, o 2POR4, nós começamos a planejar a nossa próxima pesquisa e foi num lapso de coragem que resolvemos colocar a Janela em foco. Todos os aspectos do projeto apresentavam obstáculos: a falta de recursos financeiros para o desenvolvimento, as dificuldades físicas que a janela impunha para a criação de um espetáculo teatral, as dúvidas de como o condomínio e os vizinhos receberiam a proposta, a expectativa da possibilidade real de diálogo com o público, tudo parecia ser um impeditivo para a continuidade do projeto. Resolvermos assumir todos os riscos e colocamos uma pergunta que nos pareceu a mais importante para aquele momento: O que gostaríamos de ver/fazer na janela? Esta pergunta foi importante, pois nos colocou dentro e fora da janela, nos permitiu mergulhar nos desejos estéticos, mas também nos fez sair da janela e nos deparar com a rua. Passamos a encarar a janela em relação à cidade e não apenas como simples local de apresentação. Este é o nosso principal objetivo com os projetos que desenvolvemos na janela: fazer uma reflexão sobre a nossa relação com a cidade. Achamos o tema de primeira importância nos dias atuais e acreditamos que esta discussão tem que ser apresentada também para as crianças. Nossos espetáculos são para todas as idades.
NR - Como é morar na Amaral Gurgel e ter o Minhocão como a frente de casa?
IR - É incontestável os danos que o Elevado traz para o cotidiano de quem mora próximo dele: barulho, poluição, degradação etc., mas como tudo na vida, sempre existe dois lados. Estamos muito bem localizados entre um terminal de ônibus, duas estações de metrô e a proximidade de vários pontos importantes da cidade. Precisamos entender que quando o Minhocão foi criado ele trouxe uma desvalorização brutal para a região, mas foi exatamente este fato que permitiu que uma nova camada social pudesse ocupar o centro da cidade. Se não fosse a desvalorização, nós também não teríamos conseguido comprar um apartamento tão bem localizado. Precisamos agora, diante das novas mudanças da região, garantir que esta camada mantenha o direito de permanecer na região, resistindo à ação predatória da especulação imobiliária.
NR - O que mais te assusta e te encanta em São Paulo?
IR - Existe um poder presente em todas as grandes cidades que se alimenta da eterna destruição de espaços para dar lugar à construção de novos empreendimentos. Quem representa este poder e ao que ele serve me assustam muito. Por outro lado, existe também uma legião de pessoas que, organizadas em grupos, coletivos ou de forma individual, lutam diariamente para transformar a cidade em um lugar prazeroso e mais justo. Isso me encanta e me dá vontade de ficar para sempre em SP, para estar do lado deles.
NR - Todos os personagens e situações mostradas nas montagens estão presentes no cotidiano do minhocão? O que as peças trazem de ficção e realidade?
IR - Sim, estão. É claro que nosso trabalho é dar uma dimensão poética para o cotidiano. O que o espectador vê em cena não é o acontecimento literal do cotidiano do Minhocão, mas uma leitura metafórica dele. Mas o que o espectador vê não é só este cotidiano. Nos nossos espetáculos existe o lugar para a ficção, um lugar que reservamos para o utópico, para aquilo que desejamos que aconteça. É ele que nos faz ir além, para superarmos o cotidiano, para construir o novo.
NR - Como é a relação do grupo com os moradores do prédio onde a peça acontece e dos prédios do entorno?
IR - Os moradores do nosso prédio sempre foram muito parceiros. Sabemos que por um período de tempo intervimos no cotidiano do domingo deles e sempre foi encarado tranquilamente, pois sempre tomamos o cuidado de não ultrapassar os limites do conveniente. Acreditamos que eles entendam que ao apoiar as nossas apresentações, eles também estão participando das nossas apresentações.
Nas ruas podemos perceber que o projeto cada vez mais se insere como uma ação local. As pessoas dos outros prédios nos abordam para saber quando voltaremos em cartaz, para comentar as cenas e muitas vezes chamam nosso projeto de “o teatro do bairro”. Isso demonstra uma apropriação que nos deixa muito felizes.
NR - Na sua opinião, qual o papel do teatro hoje?
IR - Provocar uma reflexão sobre nós mesmo, sobre nossa relação com os outros e com o mundo.
NR - No dia em que vi Esparrama pela Janela uma turma de Pedagogia estava assistindo ao espetáculo empolgada e tinha como tarefa analisar a montagem. Imaginava que o espetáculo pudesse gerar tanto interesse por parte do público e ainda ?
IR - Isso é algo que continua nos surpreendendo sempre. Mesmo depois de quase três anos de apresentação do primeiro espetáculo, ainda vemos pessoas que desafiam uma chuva forte e permanecem em frente à janela para nos ouvir. É claro que a gente sempre quer que nossos projetos tenham este impacto, mas o projeto superou e supera a cada dia as nossas expectativas.
NR - Muitas pessoas defendem que o Minhocão deve ser implodido (como aconteceu com a Perimetral no Rio). O que vc pensa sobre isso?
IR - É preciso sair deste lugar da disputa FLAxFLU entre o desmonte e a transformação definitiva do Minhocão em Parque. A disputa das opiniões apaixonadas deve dar lugar a uma discussão mais embasada sobre os prós e contras de cada uma das propostas. Isso ainda não aconteceu de fato.
NR - Vocês começaram bancando a produção e depois conseguiram apoio para as apresentações, através de editais. Como é manter o grupo hoje?
IR - A pesquisa que realizamos na janela chegou num ponto que exige um aprofundamento cada vez maior. Tornou-se efetivamente uma pesquisa de linguagem, o que demanda tempo e parcerias com outros profissionais, para tornar o projeto cada vez mais potente e coerente com o que buscamos dizer. Hoje não conseguimos mais desenvolvê-lo sem apoio. Já estamos enviando as novas ideias para editais e vamos torcer para conseguirmos manter uma ocupação contínua deste espaço.
NR - Além desses trabalhos na janela, vcs continuam apresentando 2POR4. Fale sobre esse espetáculo e a diferença de criar um espetáculo para um palco tradicional e para a janela (conhecem algum artista que realiza um trabalho parecido?).
IR - O 2POR4 foi o nosso primeiro espetáculo e foi através dele que chegamos à ideia da Janela. Foi durante os ensaios dele, que aconteciam na sala deste mesmo apartamento, que percebemos que os passantes do Minhocão se interessavam pelo que saia pela nossa janela. O 2POR4 foi uma parceria com a maestrina Ester Freire. Desenvolvemos uma pesquisa para inserir a música como um personagem na cena e não apenas como sonoplastia e dai nasceu um espetáculo que reúne dois palhaços e um quarteto de cordas. Já realizamos mais de 140 apresentações em mais de 40 cidades e este ano participaremos novamente do Viagem Teatral SESI, onde visitaremos mais 11 cidades do interior do estado. Na verdade, existe uma diferença em criar um espetáculo para a janela ou para um espaço mais tradicional de teatro. Apesar de se tratar da mesma linguagem artística, o teatro, existem especificidades que exigem de todos do grupo uma maleabilidade, conquistada com muito tempo de preparação e pesquisa.
NR - Já pode falar sobre o novo projeto?
IR - Já estamos em sala de ensaio para a criação de um novo espetáculo para sala de teatro. Logo, logo poderemos falar mais dele, porque agora estamos apenas nas exaustivas experimentações para nos tirar do lugar comum e encontrar algo que realmente seja potente. Estrearemos no segundo semestre. Para a janela também existe um projeto que prevê uma pesquisa longa que permita ao Esparrama navegar pela cidade, fazer um encontro mais real e próximo com as crianças e retornar cheio de histórias para a nossa janela. Estamos agora torcendo para os editais.
Esparrama pela Janela que vai até o dia 27 de março, com apresentações aos domingos, 16h00, no Minhocão!
Entre as alças de acesso do metrô Santa Cecília e Rua da Consolação.
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