Naum tem suma importância na história do nosso teatro como autor, diretor, fugurinista e cenógrafo. Merece muitos aplausos por tudo o que realizou.
Destaco as ( lindas) peças A aurora da minha vida e No Natal a gente vem te buscar. Tive também o privilégio de conferir Mediano, de Otavio Martins, monólogo com Marco Antônio Pâmio e direção do Naum.
A Aurora da minha vida retrata o cotidiano escolar num sistema opressor e preconceituoso, já que a história acontece nos anos 70 ( não é à toa que os personagens ganham o nome a partir dos tipos que os caracterizam, como a Adiantada, o Quieto, o Órfão, a Gorda, o Puxa-saco, as Gêmeas e o Bobo).
O público acompanha as memórias de um estudante que vai na escola e revê a sua infância.
Uma peça crítica, que nos remete à escola, claro, (com seus problemas e encantos) e que também é muito poética,
Essa peça tem um lugar especial na minha estante de livros e na minha memória porque já vi montagens e participei de uma, nos anos 80, quando morava em Campinas e fazia teatro no meu colégio na época (1987), Liceu Salesiano.
No Natal a gente vem te buscar acompanha a trajetória de uma família decadente, retrógrada e opressora.
Novamente as personagens são identificadas pelas suas características e funções na trama: o Pai, a Mãe, o Irmão, a Irmã, o Primo e a Solteirona. Mais um texto crítico e poético. A personagem solteirona acredita que vai morar na casa de uma prima, mas é levada a um asilo. Desolada, ela revê a sua vida.
Para saber mais:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/…/naum-alves-de-sou…
http://www.recantodasletras.com.br/humor/1840368
http://teatropedia.com/wiki/Naum_Alves_de_Souza
http://livraria.imprensaoficial.com.br/…/e…/12.0.813.663.pdf
http://www.veracruz.edu.br/palavradeprofes…/2004/teatro1.htm
www.teses.usp.br/…/di…/27/27156/tde...224636/.../1736799.pdf
Trecho da peça A Aurora da minha vida:
1.º ATO
FINAL DO PRÓLOGO
(Escuro)
Um dos antigos alunos – Era uma vez a escola... Onde havia o diretor, a servente, o inspetor de alunos, a secretária,
os professores. O prédio tinha as salas de aula, o corredor, o pátio, o banheiro, o barzinho, a secretaria, a diretoria. Na
frente, havia uma placa simples, com uma frase: “Educa a criança no caminho que deve andar e dele nunca se
desviará.” Ah! Eu ia me esquecendo. A escola era cheia de alunos, sendo educados no caminho que deveriam andar.
O VISITANTE E A VELHA PROFESSORA
(Um clima de certa irrealidade)
(Aparecem o Visitante e a Velha Professora. Sons fantasmagóricos de vozes de crianças recitando tabuadas, lendo. A
Professora passa visto nos cadernos, carteira por carteira. Revela-se o Visitante.)
Professora: Você estava com saudade?
Visitante: Eu não sei por que resolvi pensar na escola.
Professora: Não sabe, meu filho?
Visitante: Sabe como eu me lembro da escola? Às vezes como uma coisa boa, às vezes como um lugar onde eu estava
sempre angustiado.
Professora: Você não gostava dos professores?
Visitante: Eu não sei se gostava mesmo ou se era um dever como o dever de gostar da Pátria, da família. Acho que me
contaram muita história mentirosa, que não correspondia à verdade.
Professora: Eu também não sabia toda a verdade das coisas. Muitas vezes a verdade não pode ser dita, é proibida. Há
leis que proíbem, você sabe.
Visitante: A gente não tinha liberdade para nada. Os professores decidiam a vida dos alunos, os diretores a dos
professores e alguém, lá em cima, devia decidir a dos diretores.
Professora: Precisava haver ordem, disciplina.
Visitante: Sabe uma coisa que eu nunca pude falar? “Ontem eu faltei porque o dia estava muito bonito, o sol tão
gostoso, que eu fiquei correndo e brincando. E a minha mãe não ficou brava e o meu pai não me bateu.” Não era nada
bom ficar preso, com aquele calor, as moscas zumbindo, prestando atenção em coisas sem o menor interesse.
Professora: Mas nada tinha interesse?
Visitante: É que olhando a manhã pela janela, dava uma vontade de correr, brincar, subir em árvore, nadar em rio...
Professora: Pare, por favor.
(Sai o Visitante)
[...]
SOUZA, Naum Alves de. A aurora da minha vida. São Paulo: M.G. Ed. Associados, 1982
A peça fez parte de um caderno de estudos produzido pela prefeitura do Rio ( Secretaria Municipal de Educação):
http://www.rio.rj.gov.br/…/…/4109251/LP8_4BIM_ALUNO_2013.pdf |