Por Nanda Rovere
Três atrizes protagonizam a tragédia: Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros, em participação especial, no esplendor de seus 85 anos.
Medea é uma tragédia escrita pelo tragediógrafo e filósofo estoico latino Lúcio Aneu Séneca (Corduba, c. 4 a.C. – Roma, 65 d.C.), que chegou a ser conselheiro de Nero, e baseia-se na tragédia homônima de Eurípides.
A Medea de Séneca não apresenta os acontecimentos como um destino traçado exclusivamente pelos deuses, como ocorre em Eurípides. Aqui, quem conduz as ações e seus respectivos desdobramentos é o homem.
A obra de Séneca revisita o clássico de Eurípides de forma mais enxuta e violenta. Por esse motivo, é menos conhecida na história do teatro e menos encenada.
Nas palavras do diretor Gabriel Villela:
“De modo geral, suas tragédias ampliam o que se chama de desmedida: a fúria, a ira, estão no centro de tudo o que escreve.”
Assistir a uma tragédia grega é mergulhar no que há de mais doloroso na existência humana. São tramas que dilaceram o coração.
Medea chega em um momento oportuno.
Ser mulher já é complexo; ser feiticeira, em um universo marcado pelo desrespeito à diversidade religiosa, é ainda mais. Além disso, Medea não aceita as ordens dos poderosos e jamais abaixa a cabeça.
Trata-se de uma obra extremamente atual. A violência contra a mulher, em pleno 2026, é algo estarrecedor.
Em nome de um amor que, na verdade, é doença e sentimento de posse, vidas são cerceadas. Apesar de tantos avanços tecnológicos, a alma humana continua doente — e, muitas vezes, crianças também se tornam vítimas de atos horrendos.
No caso de Medea, ela é abandonada por Jasão, com quem tem dois filhos. Após anos de dedicação, ele a descarta “sem dó nem piedade” para realizar um casamento por interesse.
Na flor da idade e bem mais jovem do que Medea, Jasão une o útil ao “agradável” ao selar o acordo matrimonial com Creusa, uma jovem princesa.
Desesperada, Medea comete um ato insano como vingança, amplamente conhecido: tira a vida dos próprios filhos.
Uma tragédia ficcional que atravessa séculos, mas que encontra paralelos inquietantes na vida real. Na obra de Séneca, há ainda um detalhe importante: o etarismo — mais um tópico de reflexão que essa trama nos oferece.
A trama, em síntese:
A feiticeira Medea envolve-se com Jasão, líder dos Argonautas. Ele a abandona para se casar com Creusa, filha do rei Creonte, que determina o exílio de Medea. Ela, porém, não aceita tal imposição.
Jasão aconselha-a a partir, mas a ira toma conta de seu coração.
Medea arquiteta então o envio de um presente envenenado para o casamento de Jasão e Creusa. Cria uma poção com venenos, sangue de cobra e ervas, invoca os deuses do submundo e embebe um manto destinado à noiva. Assim que Creusa o veste, o fogo consome seu corpo.
Ao tentar apagar as chamas da filha, Creonte também se incendeia.
A morte do pai e da filha não satisfaz Medea, que deseja punir Jasão com uma dor infinita. Apesar de amar os filhos, ela os mata em um ato extremo de desvario.
É o coro que narra a fúria e a dor do abandono dessa mulher que deixou o ódio guiar seus atos.
O imaginário de Gabriel Villela possui uma força cênica expressiva e ímpar.
É a arte que nos arrebata pelo cuidado extremo com os mínimos detalhes da cena e pelo talento dos atores, permitindo que seu teatro épico ganhe os palcos com absoluta maestria.
Para dar vida a esse imaginário artístico, cores, texturas, panos sobrepostos e a música — com canções de Carlos Zimbher — ajudam a construir o sentido da trama.
Em Medea, as simbologias das máscaras são especialmente marcantes na narração de uma tragédia escrita há séculos e que continua dolorosamente pulsante.
No palco, três grandes atrizes interpretam Medea: Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros.
Medea é mulher e mãe. É a estrangeira traída e silenciada que não aceita o abandono de Jasão nem a sentença de expulsão.
“O texto é primoroso e parece importante, hoje, apontar sua relação com a violência que ronda o nosso dia a dia. Temos nos confrontado com a barbárie o tempo inteiro: na política, nos assassinatos festivos, na internet que julga e sentencia. Tornamo-nos o vírus capaz de acabar com o planeta”, observa Villela.
A equipe de criação destaca ainda a potência retórica de Séneca e sua capacidade de unir a palavra ao poder da imagem. “Isso é um valor importante de seu texto”, completa o diretor.
O elenco reúne grandes nomes do teatro, com quem Villela já manteve parcerias.
Claudio Fontana é parceiro profissional desde os anos 1980, quando Villela era estudante de Direção Teatral na ECA/USP e o ator integrava o Núcleo de Teatro Amador do Clube Pinheiros. Rosana Stavis, Walderez de Barros, Letícia Teixeira e Mariana Muniz também já foram dirigidos por Villela. Plínio Soares estreia agora essa parceria.
A equipe técnica e criativa conta igualmente com colaboradores de longa data: JC Serroni, na cenografia; Claudinei Hidalgo, no visagismo; Wagner Freire, na iluminação; Ivan Andrade, como diretor-adjunto; e Gabriel Sobreiro, ator e diretor assistente.
Além de estar em cena, Fontana é o produtor e conta com a ajuda de Augusto Vieira (produção executiva).
Gabriel Villela mantém ainda longa parceria com o Sesc. No Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, encenou Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, de Carlos Alberto Soffredini; A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca; A Guerra Santa, de Luís Alberto de Abreu; A Rua da Amargura, com o Grupo Galpão; Ubu Rei, de Alfred Jarry, com Os Geraldos. No saguão do teatro, ocorreu também o lançamento do livro Imaginai – O Teatro de Gabriel Villela, escrito por Dib Carneiro Neto, com pesquisa iconográfica de Rodrigo Audi.
Além de todo o talento artístico, destaca-se a preocupação em criar um espetáculo belo, com cuidado extremo em cada detalhe da cena.
Em uma época em que tudo é microfonado, a essência do teatro é respeitada: as vozes dos atores ecoam sem interferência tecnológica, revelando a potência vocal como valor fundamental da arte teatral.
Elenco: Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares e Letícia Teixeira.
Gabriel Sobreiro, assistente de direção e integrante do coro.
Fotos de João Caldas
Serviço
Medea
Sesc Consolação – Teatro Anchieta
Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque – São Paulo/SP
Informações: (11) 3234-3000
Temporada: 29/1 a 8/3/2025
Horários:
Quintas, sextas e sábados, às 20h
Domingos, às 18h
Sessões especiais:
* 14/2 (sábado), às 18h
* 26/2 e 5/3 (quintas), às 15h
Ingressos:
R$ 70 (inteira) | R$ 35 (meia-entrada) | R$ 21 (credencial plena)
Lotação: 280 lugares
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos |